sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Moita sem chuva, mas com ambiente frio...

Resume-se assim: seis cavaleiros a darem o seu melhor frente
a toiros lindíssimos mas sonsos e um triunfo grande do grupo
de forcados do Aposento da Moita

Miguel Alvarenga - Depois do mau feito de São Pedro, que inviabilizou com chuvadas as duas primeiras corridas, arrancou ontem finalmente a Feira da Moita com aquela que era previsto ser a última corrida do ciclo e acabou por ser a primeira. Segue-se uma novilhada hoje à noite e uma corrida mista no sábado.

E aquela que por tradição era sempre a corrida forte da feira moitense, a dos cavaleiros, tantas vezes de praça cheia e algumas esgotada, foi ontem uma corrida meio morna, igual a tantas e com apenas quase três quartos da lotação preenchidos.

O público manifestou pouco entusiasmo, diria mesmo que esteve muito frio em relação ao que é costume nesta praça. Os toiros de Passanha Sobral tinham, na realidade, o inquestionável trapio que a publicidade anunciou, o primeiro tinha uma córnea de meter respeito, o quinto era uma estampa de toiro e foi recebido na arena com uma ovação. Mas foram sonsos, apesar de serem bem bonitos.

Os cavaleiros esforçaram-se, entregaram-se, todos quiseram estar bem, mas a corrida teve pouca história e os que melhor a escreveram foram mesmo os forcados com cinco pegas à primeira e só uma à segunda. Noite de exaltação do grande grupo do Aposento da Moita, anunciavam os cartazes. E foi isso mesmo que aconteceu. Noite de glória para o histórico grupo do Aposento.

Metia respeito, como disse atrás, a córnea do toiro que abriu a corrida, tinha um trapio digno de qualquer primeira praça do mundo. Investiu pelo seu caminho, sem complicar, foi um toiro que cumpriu. E teve pela frente um Mestre. António Ribeiro Telles lidou-o com a maestria e a classe de sempre. Não houve propriamente explosões nas bancadas. O respeitável público, repito, esteve ontem demasiado frio com os toureiros...

A Gilberto Filipe, cavaleiro que dá sempre gosto ver montar, saíu um toiro parado e manso. Fez Gilberto tudo aquilo que podia fazer. E quem dá o que tem a mais não é obrigado. Deu tudo. Do toiro não recebeu nadinha em troca...

O terceiro toiro teve melhor nota. E João Moura Júnior, inspirado e a atravessar grande momento, rubricou uma lide emotiva, digamos que aqueceu o ambiente com o seu toureio de arte e maestria plena. Recebeu-o com uma fantásticas sorte de gaiola. Brega "à Moura", ferros com a marca da casa, uma "mourina" perfeita e ainda um palmito. 

Era mais reservado o toiro de João Ribeiro Telles. Mas também ele está num momento enorme - e por isso aconteceu toureio do bom. Pisou a linha de fogo, arriscou, deixou ferros em sortes ousadas e terminou com dois grandes curtos e a magia do "Ilusionista" a fazer parar corações. 

João Salgueiro da Costa lidou o tal toiro que todos aplaudiram mal entrou na arena. Esteve valente nos compridos e acertado nos curtos. O toiro pedia contas e João respondeu com a emoção costumeira, ferros com ligeira batida ao píton contrário que resultaram emotivos.

O sexto toiro foi para Paco Velásquez, cavaleiro que este ano recebeu a alternativa em Huelva, mas que cá não contou para nada porque assim são as nossas leis e por isso é ainda praticante. Toiro encastado, mas com pouca força e que acabou sentado na arena à porta dos curros depois da pega. Lide perfeita do cavaleiro que também é matador de toiros. Boa brega, ferros certeiros e no fim dois curtos de nota altíssima com cites em que encurtou as distâncias e quase emocionou um conclave que ontem, decididamente, pouco entusiasmo demonstrou.

A corrida, repito, foi meio morna. Foi mais uma. Ambiente estranho...

Bem estiveram todos os bandarilheiros frente a toiros que eram sérios. E muito bem estiveram ontem os forcados do Aposento da Moita com pegas (cujas sequências vamos mostrar já a seguir) a cargo do cabo Leonardo Mathias, Tiago Valério (única consumada ao segundo intento, mas não menos valorosa que as outras), João Freitas, Diogo Gromicho, Martim Cosme Lopes e André Silva, havendo que destacar as brilhantes intervenções do rabejador Tiago Nobre

Não vim propriamente da Moita com um amargo de boca. Mas vim cheio de sono. Podia ter sido muito melhor. Esperava-se que fosse muito melhor. Foi uma corrida igual a muitas e sem nos contar nada de muito especial.

Dirigiu Tiago Tavares, bem, dando música a todos, assessorado pelo médico veterinário Carlos Santos.

As maiores e mais calorosas ovações da noite foram para o forcado Nuno Carvalho "Mata", a quem o cabo Leonardo Mathias brindou a primeira pega; e para João Quintella, pai do saudoso forcado Fernando Quintella, que morreu nesta mesma praça há cinco anos e por quem se guardou ao início um minuto de silêncio - a quem Martim Cosme Lopes dedicou a quinta pega da noite.

Fotos M. Alvarenga

Antigamente, na corrida de quinta-feira, não cabia um alfinete
na praça da Moita...