sexta-feira, 17 de maio de 2019

Num Campo Pequeno cheio e a "bater-se" com dois colossos (Rouxinol e Hermoso), Moura Jr. escreveu ontem uma nova página na História do toureio a cavalo

A nova sorte "mourina" fez ontem o Campo Pequeno vir abaixo. João Moura
Júnior escreveu uma nova página na História do toureio a cavalo. O que ontem
aconteceu em Lisboa tão cedo não ver ser esquecido!
Não há toiros bons nem toiros maus, toiros duros ou mais dóceis para um
toureiro como Luis Rouxinol. Ele é um verdadeiro compêndio de bem tourear
Pablo Hermoso de Mendoza encheu uma vez mais o Campo Pequeno. É, e tão
cedo não vai deixar de o ser, um verdadeiro ídolo da aficion lusitana. O difícil
parece fácil no temple e na arte do seu toureio de cátedra
Forcados de Lisboa e de Évora não tiveram ontem a vida facilitada, mas
executaram seis pegas emotivas - que mais logo aqui vamos mostrar uma a uma,
numa excelente reportagem de Maria João Mil-Homens


Lisboa veio abaixo e João Moura Jr. escreveu ontem uma nova página na História do toureio a cavalo na arena do Campo Pequeno. Nada será como dantes, como há quatro décadas nada voltou a ser igual depois da chegada do "Niño Prodígio", seu pai. Luis Rouxinol e Pablo Hermoso deram lições de cátedra. Três toureiros de outra galáxia numa noite de euforia a lembrar os tempos de ouro de uma Catedral que é muito mais que uma Medina e onde nunca podem acabar as touradas!

Miguel Alvarenga - Foram nobres e sérios os toiros de Francisco Romão Tenório, transmitindo com a emoção limitada dos Murubes, mas não me venham agora dizer que não houve toiros e que eram todos babosas "da corda". Exceptuando os dois que tocaram a Pablo Hermoso, menos encastados, mas a que o rei deu a volta, os toiros proporcionaram o brilho dos cavaleiros, não facilitaram a vida aos forcados e a realidade é que uma praça cheia, não esgotada, mas completamente cheia, viveu uma noite de emoções e de euforia - e aplaudiu até mais não.
É óbvio que os toiros não tiveram a agressividade e a dureza dos de outras ganadarias, mas também é verdade que o público gosta e se diverte a ver os toureiros fazer arte com exemplares destes encastes. Há público para os toureiros de luta e de guerra e há público para os toureiros de arte. E se calhar, quem sabe se um dia alguém o reconhecerá, é capaz de ser mais difícil lidar estes toiros do que lidar os que arreiam. Não é por acaso que Pablo Hermoso é quem é e continua a ser um ídolo sagrado da aficion lisboeta. O público adora vê-lo desenhar a sua arte, tornar fácil o difícil, frente a toiros como estes. Virão certamente os que se julgam ser os arautos da verdade dizer e escrever o contrário, que a corrida não prestou, que não houve emoção, que os toiros eram tourinhas de encantar, que mais isto e mais aquilo, mas contra factos não há argumentos e ontem o Campo Pequeno (que ambiente!) veio abaixo com Rouxinol, com Hermoso e sobretudo com Moura. Os cerca de seis mil espectadores que lá estavam não percebiam nada daquilo?... Ou sou eu que vejo sempre as coisas ao contrário?...
João Moura Júnior viveu ontem uma noite de triunfo e apoteose daquelas que não mais se vão esquecer. Aconteceu na primeira praça do país e ao lado de dois colossos do toureio a cavalo, o que lhe deu um impacto ainda maior. Moura escreveu uma nova página na História do toureio a cavalo, digna de figurar, se ainda houvesse um Jayme Duarte de Almeida ou um Cossio, em qualquer enciclopédia da tauromaquia.
A "mourina", a sorte que ele ontem (re)inventou e com a qual, nos dois últimos ferros, provocou uma verdadeira explosão no Campo Pequeno, vai passar agora a constar como uma das mais emotivas - e difíceis de praticar - do toureio a cavalo e não tardará que muitos outros a tentem também executar.
Consiste esta nova sorte no cite inédito, lá do outro lado da praça, a recuar até junto do toiro, virando-se quando este investe, enfrentando-o de frente e num palmo de terreno, quase sem saída, cravando o ferro e saindo da cara do toiro sem se perceber bem como tudo aquilo foi possível. O penúltimo ferro de Moura foi um espanto, causando a admiração e a euforia do público e o último foi um verdadeiro colosso, a praça veio abaixo, o público levantou-se das bancadas e João deu no final duas voltas à arena, recusando a terceira que todos lhe pediam e lhe teria certamente proporcionado a saída em ombros. Mas ontem foi bem mais importante a História que ele escreveu do que uma aclamada saída em glória pela porta grande.
A "mourina", talvez muitos não se lembrem, foi levemente - e digo levemente porque fê-lo brilhar em algumas tardes, mas depois não teve uma grande sequência - executada pelo Maestro Moura no início dos anos 80 e o próprio João Moura diz que um dia a viu feita por Mestre Núncio. João Moura Jr. (re)inventou-a ontem, quarenta anos depois de seu pai, aperfeiçoando-a. Para todos os efeitos e porque já serão poucos os aficionados que nessa década de 80 viveram as muitas noites de euforia e de glória dos tempos primeiros da revolução mourista, a sorte com que Moura Jr. pôs ontem Lisboa de pernas para o ar foi uma novidade. Que fica na História e um consagra, reconsagra ou tudo o que quiserem dizer para classificar e referenciar este feito, como primeiríssima figura do século XXI no que ao toureio equestre diz respeito.
Como há poucos dias escrevi, algo está a mudar na tauromaquia nacional. Quatro dias antes de Moura Jr. inovar a arte de lidar toiros a cavalo com este empolgante sorte "mourina", também Francisco Palha (de braço ao peito e a quem Moura brindou a sua primeira lide) inovou em Salvaterra com a nova forma de executar uma sorte de gaiola, indo directo ao toiro e cravando o ferro mesmo à porta dos curros. Ou seja, os novos estão a explodir!
Mas Moura não se limitou ontem a esses dois ferros monumentais com que fechou a sua noite de apoteose em Lisboa. Esteve monumental na lide do terceiro toiro da noite e no último, antes das duas "mourinas", já marcara a diferença nos ferros anteriores, em que esperou até ao último segundo, deu ao toiro toda a prioridade e se quarteou para cravar num curtíssimo palmo de terreno, galvanizando as bancadas. Lides "à Moura" que ontem marcaram o primeiro dia do resto da vida de João Moura Jr. Novo "Niño Prodígio" da História do toureio a cavalo.
Falei no início dos toureiros de guerra e dos toureiros de arte. Luis Rouxinol é toureiro de tudo. E toureiro de todos os toiros. Já é um lugar comum, mas é sempre uma verdade, dizer que ele não sabe estar mal. Rouxinol é um compêndio de bem tourear, um verdadeiro manual de grande profissionalismo e um toureiro que enche sempre as medidas aos aficionados pela sua maestria, pela sua arte, pelo seu pundonor e pela sua eterna entrega - que brada sempre aos céus. Sejam Graves, sejam Teixeiras, sejam Tenórios, para ele não há toiros duros nem difíceis, nem toiros mais fáceis e menos agressivos, há apenas toiros. E como é toureiro e dos bons, lida-os a todos com o mesmo fulgor, com a mesma emoção e criando o mesmo impacto com o público. Um espanto.
Sobretudo com o magnífico cavalo Douro, pôs o público em alvoroço nos ladeios a um milímetro do toiro, na forma como lidou e bregou, na emoção que colocou em todas as sortes e, acima de tudo, na cátedra que impôs nas suas duas brilhantes actuações. Foram duas lições de bom toureio, uma arte em que ele é um dos professores maiores.
Pablo Hermoso de Mendoza é, e não consta que tão cedo venha a deixar de o ser, um toureiro idolatrado e querido pelo público português e sobretudo pelo público do Campo Pequeno. A sua arte, a sua doma, o seu temple, aquela eterna e gloriosa sapiência e maestria com que faz parecer o difícil a coisa mais fácil e simples do mundo, mas acima de tudo a sua classe, fizeram dele um dos grandes e mais aplaudidos toureiros "de Lisboa", uma praça que ele conquistou há anos e reconquista todas as noites em que aqui regressa.
Verdadeiro rei do rejoneio, figura mundial com trinta anos de alternativa, já com seguidor assegurado - seu filho Guillermo, que em Julho se estreia entre nós na praça de Évora e em Setembro se apresentará no Campo Pequeno -, Pablo Hermoso de Mendoza voltou ontem a demonstrar na "sua" praça todo o esplendor da sua tauromaquia e toda a dimensão do seu toureio - de outra galáxia.
Os dois toiros do seu lote foram os que menos transmitiram e os que menos quiseram ir à luta. Mas foi Pablo, com todo o seu saber, com toda a sua arte, com toda a sua genialidade. Duas lides de maravilha com o público a vibrar e a aplaudir do primeiro ao último ferro, recortes únicos de arrepiar, a "hermosina" para cá e para lá, como se aquilo fosse a coisa mais simples de fazer na cara de um toiro.
Não digam que não é arte, não digam que não tem valor, não digam que aquilo só se faz com toiros destes, porque já o vi fazer igual com outros e com todos. Pablo Hermoso reafirmou ontem no Campo Pequeno o seu estatuto de grande ídolo dos aficionados portugueses. Por isso a praça encheu para o ver. E o resto são cantigas!
Bem as quadrilhas dos cavaleiros, destaque merecido para todos - Manuel dos Santos "Becas" e João Bretes com RouxinolJosé Grenho, que há um ano sofreu grave lesão num olho e agora actua "à Padilla", Ricardo Raimundo e Luis Carlos Castellanos com Hermoso; Filipe Gravito e João Oliveira com Moura.
Os toiros de Romão Tenório, afinal não tão "facilitões" quanto isso, não deram tréguas aos forcados.
Pedro Gil (à segunda, recusando depois a volta à arena, que todos os outros deram nas mesmas circunstâncias e ele merecia), Duarte Mira (à primeira) e Vitor Epifânio (à segunda) foram os intervenientes pelos Amadores de Lisboa.
Pelos Amadores de Évora pegaram o cabo João Pedro Oliveira, Dinis Caeiro e António Torres, todos eles em sortes executadas ao segundo intento.
Não foi propriamente uma noite de grande apoteose para a forcadagem, mas viram-se boas e emotivas pegas e o público nunca regateou aplausos aos valentes das jaquetas de ramagens.
Guardou-se ao início da corrida um minuto de silêncio em memória do eterno Ricardo Chibanga e a corrida foi muito bem dirigida, com o rigor e a aficion que sempre caracterizam a postura e o profissionalismo de Pedro Reinhardt, que esteve assessorado pelo Dr. Jorge Moreira da Silva, o competente médico veterinário que quase sempre está de serviço nas corridas de Lisboa.
Não era a de ontem uma noite particularmente feliz para a aficion portuguesa, depois do autarca socialista Medina haver assumido mais uma posição anti-taurina que alguns receiam poder um dia colocar em causa a continuidade das touradas no Campo Pequeno.
Não sou assim tão pessimista, a posição pública do antigo empresário Dr. João Borges veio esclarecer muita coisa e explicar, sobretudo, que a Casa Pia não irá certamente deixar de ter a obrigatoriedade de realizar touradas nesta praça - foi para isso que ela foi construída há mais de 125 anos - apenas e só porque um presidente de Câmara a "desobrigou", mas a verdade é que não podemos baixar os braços - temos que agir.
E ontem agimos. Enchemos o Campo Pequeno. Vivemos uma noite de um enorme esplendor e com um ambiente "do outro mundo" e na arena brilharam, inovaram e galvanizaram três toureiros de outra galáxia. Uma Festa assim não acaba nunca!

Fotos Frederico Henriques/@Campo Pequeno e Juan Andrés H. Mendoza/Farpas