sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Triunfo de todos e um ambiente à antiga marcaram última corrida do Campo Pequeno

António Telles confirmou a alternativa ao novo Núncio, um
jovem cavaleiro que deu ontem uma importante chamada de 
atenção

Miguel Alvarenga - O Campo Pequeno encerrou ontem a sua mais pequena - e mais preocupante - temporada de sempre, em 130 anos de história que foi gloriosa, com uma corrida fantástica em que todos triunfaram, cada cavaleiro com seu estilo e com sua forma de interpretar esta tão nobre arte, com cerca de três quartos da lotação preenchidos, mas, infelizmente, sem casa cheia, ou mesmo esgotada - como se impunha e a Catedral bem merecia.

Esta quarta e última corrida fechou um ciclo onde foi patente o empenho e o esforço do empreendedor empresário Luis Miguel Pombeiro, mas onde haverá, obviamente, críticas a fazer por não ter havido, em apenas quatro noites, um cartelazo de arromba que fosse um acontecimento único - a noite de Morante foi a melhor pelo triunfo memorável do génio do toureio a pé e a de ontem superou todas as expectativas porque os toiros de Charrua, sem transmitir uma emoção por aí além, serviram (como agora se diz) e os cavaleiros e forcados "deram o litro" e empenharam-se para que a corrida fechasse esta mini-temporadazinha com chave de ouro.

O público abandonou a praça satisfeito e a festa prosseguiu pela noite dentro, com um ambiente incrível e muitos copos a celebrar o triunfo nos restaurantes da praça. Pode mesmo dizer-se, sem cair em exagero, que foi uma das melhores corridas desta temporada.

Este êxito pode -e deve - bastar para colmatar algumas das falhas e das ausências que marcaram esta pequena temporada em Lisboa, esperando-se, como nos adiantou Pombeiro esta manhã, que no próximo ano se retome a normalidade e o abono possa ser composto por seis ou oito corridas. Mas deixemos para uma próxima ocasião a análise ao que foi a época das quatro corridas na capital.

Ontem foi uma noite grande, fechou-se o ciclo com chave de ouro e todos nos temos que congratular por isso.

Os seis toiros da ganadaria Charrua, com pesos excessivos (por esta ordem, 638 quilos, 644, 650, 670, 578 e 682...), mas com mobilidade, não transmitiram grande perigo nem muita emoção (recorde-se que estavam inicialmente destinados a Pablo Hermoso...), mas deixaram-se tourear, proporcionaram êxitos a todos os cavaleiros e apesar de terem complicado em algumas pegas, não fizeram mal aos forcados, ninguém se lesionou. Diogo Charrua, bisneto do saudoso António Coelho Charrua, fundador da ganadaria, deu volta à arena no segundo toiro com António Telles e o forcado da Azambuja, volta essa protestada com sonoros assobios por um grupo de aficionados, mas aplaudida pela maioria. Na generalidade, pode dizer-se que os toiros serviram, mesmo sem aquele picante de bravura que torna sempre distinta a emoção em qualquer espectáculo.

Cada qual defendendo o seu estilo, os seis cavaleiros foram protagonistas de grandes actuações, não havendo nada, nadinha mesmo,  a apontar a qualquer um deles. Dificilmente se pode também nomear um dos seis como grande triunfador da noite, estiveram todos num nível acima da média, mas foi Marcos Bastinhas, com a sua irreverência e toda a sua exuberância, aquele que mais deixou o público em alvoroço, ao ponto de ter dado duas voltas à arena em ambiente de total euforia, a primeira com o forcado e a segunda sózinho, por exigência do respeitável público. 

Abriu praça o jovem Francisco Núncio, que confirmou a sua alternativa (recebida na temporada passada em Alcácer do Sal, a terra de seu bisavô, o Califa), reafirmando numa lide perfeita e clássica, todas as muitas qualidades que lhe têm sido reconhecidas nas suas últimas actuações. Atenção a este novo Núncio - que vai dar muito que falar e não deixa ninguém indiferente. Tem estilo, tem "gancho", chega ao público, é um clássico e emociona pela verdade com que toureia. Em boa hora o trouxe Pombeiro a Lisboa nesta última corrida da temporada. Francisco deixou imenso ambiente, vai, não tenho dúvidas, engrossar muito rapidamente o pelotão da frente e assim honrar a memória do Mestre, seu bisavô, que de todos foi o primeiro.

Os Charruas não são propriamente toiros do campeonato do Maestro António Ribeiro Telles, toureiro para toiros com mais seriedade e maior raça. Mesmo assim, soube António - e outra coisa não seria de esperar - lidar superiormente o segundo exemplar da noite, tapando-lhe as mordomias de toiro bonzinho, imprimindo emoção onde ela faltava, bregando com a grandeza com que sempre o faz, cravando ferros de grande nota que levantaram o público dos seus lugares e o obrigaram no final, depois de dar volta com o forcado, a ir ainda ao centro da arena receber outra calorosa ovação. Quem sabe, sabe!

João Moura Caetano iniciou a sua lide esperando o terceiro toiro à porta da gaiola, cravou dois compridos de excelente nota e depois foibuscar o cavalo craque "Campo Pequeno" para os curtos, cravando um primeiro em sorte frontal, com ligeira batida ao píton contrário, que resultou em cheio. Quando rematava a sorte, ladeando a um palmo do toiro, o cavalo escorregou e Caetano sofreu uma queda aparatosa, de que felizmente não resultaram quaisquer danos para si ou para o cavalo. Regressou à arena de novo montado no "Campo Pequeno" e a lide prosseguiu em ritmo triunfal, com o temple que caracteriza esta dupla, com ladeios emotivos e "hermosinas" na cara do toiro, terminando em grande e com o público em verdadeira euforia. Melhor era impossível.

Marcos Bastinhas, num momento ímpar, deixou Lisboa em alvoroço. Começou dobrando-se muito bem e de forma espectacular, dando com o cavalo autênticos capotazos ao toiro, cravando dois ferros compridos de antologia, a receber, aguentando, dando todas as prioridades ao oponente, quarteando-se num palmo de terreno para depois cravar com a verdade e a emoção de sempre. Seguiram-se dois curtos idênticos, a aguentar uma barbaridade, a deixar vir o toiro, espectaculares. E depois trocou de cavalo e deu o seu espectáculo habitual de exuberância e ousadia - com que conquista todos os públicos. Cavalo em pé, o sempre exigido par de bandarilhas, o salto para a arena, o beijar a terra e ontem até foi mais longe: quando o toiro se arrancou para ele, fez-lhe um quiebro a corpo limpo no meio da arena, como nada se passasse, demonstrando o momento grande que está a viver e as suas tremendas faculdades. A praça veio abaixo com este rasgo de valentia e temeridade de Bastinhas - que no final deu uma volta à praça com o forcado e mais outra por exigência do público. Único! Magistral!

Duarte Pinto não tinha a tarefa facilitada, antes pelo contrário, depois de em praça ter estado, com a força com que esteve, o imparável Bastinhas. Toureiro de corte clássico e arte do melhor gosto, Duarte aproveitou as excelentes investidas do quinto Charrua para pôr em prática o seu toureio de verdade. Bregou com acerto e saber, cravou dois compridos de poder a poder e nos curtos esteve elevado, numa lide em crescendo e que foi perfeita do princípio ao fim. Quinto triunfo numa noite em que, repito, se viu tourear a cavalo a sério - e bem. Como o fez Pinto.

E depois veio Miguel Moura, a protagonizar uma temporada de êxitos, que brindou a sua lide ao crítico taurino espanhol Manuel Molés e mandou recolher os seus bandarilheiros para receber o toiro com uma emotiva e bem executada sorte de gaiola, dobrando-se com maestria a rematar este primeiro ferro que deixou logo o público com ele. Seguiu-se uma lide galvanizante marcada por ferros de muito boa execução e brega superior, ladeando, impondo a arte mourista que lhe vai na alma. Terminou com um ferro de palmo cravado de frente, no centro da arena, fechando com chave de ouro esta sua notável passagem pelo Campo Pequeno e fechando também de modo admirável a temporada de 2022 na primeira praça do país.

Muito bem estiveram todos os bandarilheiros dos seis cavaleiros, ontem com poucas intervenções durante as lides, já que os seus Maestros se encarregaram do trabalhinho quase todo numa noite em que estiveram todos inspirados e vieram à Catedral com ganas de triunfar - como aconteceu.

Nas pegas sobressaiu ontem, contra as previsões dos habituais maldizentes, o Grupo de Azambuja, que celebrava os 55 anos da sua fundação e os comemorou de forma altamente positiva com três pegas por intermédio de Ruben Branco (à primeira), João Branco (à segunda) e José Gonçalves (à primeira).

Os gloriosos Amadores de Vila Franca, também em ano de comemoração do 90º aniversário da sua fundação, brilharam ontem na quinta pega da noite, superiormente executada pelo consagrado Guilherme Dotti. O cabo Vasco Pereira pegou o primeiro toiro à terceira e Rafael Plácido esteve na cara do terceiro toiro, consumando à segunda. Já a seguir, não percam a grande reportagem com as sequências das seis pegas.

Fábio Costa dirigiu acertadamente esta última corrida de Lisboa, ouvindo apenas protestos de alguns aficionados por ter concedido a volta à arena ao ganadeiro no segundo toiro. Esteve assessorado pelo médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

Ao início da corrida, que se anunciava como Corrida Real, a que se dignou assistir a Duquesa de Bragança, a quem cavaleiros e forcados brindaram algumas actuações, a empresa Ovação e Palmas homenageou na arena os ganadeiros Engº Luis Rocha e Engº João Ramalho e o antigo forcado José Jorge Pereira (que integrou no seu tempo os grupos de Santarém, de Montemor e de Lisboa) e, a título póstumo, os cavaleiros José Zúquete e Vasco Taborda e o recentemente falecido Rui Casqueiro, bom aficionado e grande dinamizador da Tertúlia "Festa Brava", de que foi presidente. 

É de elementar justiça aqui referir que, apesar de só ter sido na última corrida do ano, se registou ontem alguma melhoria no som da praça, que até aqui tornava imperceptível as palavras de António Lúcio - e ontem todos entendemos no momento das referências aos seis homenageados.

Durante as cortesias, guardou-se um respeitoso minuto de silêncio em memória dos três homenageados a título póstumo e também da Rainha Isabel II de Inglaterra, que ontem nos deixou aos 96 anos. A corrida começou com o hino monárquico "Maria da Fonte" e terminou com o hino republicano "A Portuguesa". Para todos os gostos.

E para o ano há mais. Oxalá que haja.

Fotos M. Alvarenga

Ganadeiro, bisneto de António Charrua, deu volta à arena no
segundo toiro com António Telles e o forcado Ruben Branco
(Azambuja), mas houve quem não gostasse...
Praça registou uma boa presença de público, mas ainda não
foi desta que esgotou a lotação - como a Catedral merecia!