Miguel Alvarenga - As casacas usavam-se por cima do joelho e ele passou a usá-las muito abaixo dessa medida. Parecia que "ia de saias", diziam os conservadores. Os cabelos compridos. Aquele forma "meio doida", mas de uma tremenda e arrepiante verdade, de citar os toiros de praça a praça e com eles se reunir ali no meio, a entrada ao piton contrário, dava a impressão que aquilo ia chocar tudo. Eram os célebres "ferros à Batista". Paravam qualquer coração. Respirava-se de alívio quando os cravava. Ufa!
Viera de São Marcos do Campo, ali ao lado de Reguengos de Monsaraz. Ninguém toureava na família. Viera decidido a marcar a diferença, numa época em que os grandes senhores do toureio a cavalo se chamavam Mascarenhas, Núncio, Conde, Ribeiro Telles, Lupi, Cortes, Louceiro.
Reza a história que o então empresário do Campo Pequeno, Manuel dos Santos, com o olho que tinha para descobrir e lançar novos talentos, nele apostou com quantas forças tinha, pondo-o em Lisboa a competir com Mestre João Núncio. Quando pela primeira vez se juntaram, Núncio comentou no fim da corrida para Manuel dos Santos: "O 'gadelhas' é mesmo bom". E era.
Uns anos mais tarde contar-me-ia na primeira entrevista que lhe fiz, em Julho de 1979, para o jornal "A Rua":
"Sempre que toureva no Campo Pequeno com o senhor João Núncio, eu era o primeiro a chegar à praça. Uma hora antes já estava a cavalo no páteo de quadrilhas. Quando o Mestre chegava, ia tudo 'agachar-se' ao beija-mão. Eu, como estava montado, era o único a quem ele tinha que se erguer e vir cá acima para cumprimentar...".
Foi o primeiro cavaleiro a quem chumbaram na alternativa, vá-se lá saber por quê. D. Francisco de Mascarenhas viria depois a apadrinhá-lo na arena da Moita.
Fernando Camacho apoderou-o na fase final e foi nesse tempo que tive a honra de mais de perto conviver com José Mestre Batista. Era um verdadeiro delírio. Contava-me a Tininha, sua Mulher, que quando iam ao estrangeiro passava o tempo nos museus e a comprar livros. Talvez não parecesse, mas era um homem cultíssimo. Lia, aprendia. Adorava ir ao cinema, desde que o filme tivesse cavalos.
No final de 1984 estivemos juntos pela última vez no recentemente desaparecido café "Arena" do Campo Pequeno. "Imagina que querem que vá para o ano tourear ao México... e eu vou!", disse-me.
Mas veio Fevereiro (1985), o Carnaval, uns dias passados em Zafra (Espanha) com a Mulher e o filho João. Sofreu mais um violento ataque de asma e o coração não resistiu. Tinha 42 anos quando morreu. Passam ontem exactamente 41 anos.
Para trás ficava uma carreira gloriosa, única mesmo, nas arenas, uma competição aguerrida com Luis Miguel da Veiga e depois com Zoio. E sempre a mesma irreverência, o mesmo sorriso malandreco, as mesmas graças - tinha uma graça incrível. Era um gozão bestial. Ao pé dele estávamos sempre bem divertidos.
Muitos conheceram-no mais e melhor que eu. Mas as vezes em que estive com José Mestre Batista, três ou quatro jantares em sua casa em Vila Franca, muitas corridas, algumas viagens de automóvel com Camacho (uma inesquecível para a Póvoa de Varzim) foram suficientes para ficar com uma imagem que não esqueço mais. Não houve outro igual.
Fotos D.R., Fernando Gonçalves e Patrício Estay
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| Julho de 1979, quando pela primeira vez o entrevistei para o semanário "A Rua", fotografados por Fernando Gonçalves |
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| Em 1984 no Salão Nobre do Campo Pequeno, na apresentação da corrida em que apadrinhou a estreia do mexicano Ramón Serrano |




