sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Lisboa: faltaram toiros mas houve toureiros e forcados!

Embora fosse António Telles o cabeça de cartaz, foi Pablo Hermoso, o que é
compreensível e aceitável, quem ontem confirmou a alternativa a ser filho
Guillermo no Campo Pequeno
Saber, maestria e classe. Triunfo enorme de António Ribeiro Telles na lide que
parecia impossível ao quarto toiro da noite
Pablo Hermoso deu um ar da sua muita arte na lide do terceiro toiro da corrida
Guillermo Hermoso de Mendoza pôs Lisboa de pé a aplaudi-lo com a grande
actuação que teve no último toiro, o mais Passanha dos Passanhas de ontem


A corrida estrela da temporada lisboeta, com um cartel monumental, um ambiente à antiga e três quartos fortes das bancadas preenchidos, foi uma desilusão total porque faltaram toiros. E quando assim é...

Miguel Alvarenga - O que deveria ter sido a grande corrida da temporada do Campo Pequeno, a nona do abono, acabou por ser uma desilusão dez vezes maior do que a expectativa pela decepção que foram os toiros da ganadaria Passanha, uma das mais prestigiadas da actualidade, ainda recentemente aclamada por toda a imprensa espanhola e que em Julho tivera nota altíssima em Évora, precisamente na corrida de apresentação em Portugal de Guillermo Hermoso de Mendoza, que ontem teve estreia lisboeta com honras de público de pé na lide do sexto toiro da noite, o mais Passanha de todos e aquele que acabou por salvar a honra do convento que é a histórida Herdade da Pina.
Na generalidade e apesar da apresentação e do trapio irrepreensíveis, os toiros da famosa ganadaria foram mansos, sem casta, sem chama e sem a classe costumeira. Demasiado dóceis, parados, muito colaborantes, sem transmitir a emoção, o risco e a verdade que são a grande essência do espectáculo tauromáquico.
Valeu terem tido pela frente dois grandes maestros do toureio a cavalo, António Ribeiro Telles (que esteve enorme na lide impossível ao quarto da noite) e Pablo Hermoso de Mendoza (que deu um ar da arte que fez dele ídolo da aficion lusa no terceiro toiro da noite e pouco conseguiu fazer com o quinto, parado e manso) e um jovem que é tão genial como o pai, Guillermo Hermoso de Mendoza, que soube aproveitar "da cabeça aos pés" a boa qualidade do último toiro da corrida, esse sim, um Passanha ao melhor tipo da ganadaria, alcançando um fortíssimo e aclamado triunfo.
O saber, a arte e a classe de António Ribeiro Telles tornaram possível o que parecia impossível. Estes toiros não são os toiros dos campeonatos do grande Mestre, mas quem é rei jamais perde a majestade e António deu ontem uma lição monstra de como também se podem lidar toiros sem raça e sem casta, pondo ele a emoção e o risco numa actuação verdadeiramente magistral e que fica na memória desta temporada. No seu primeiro esteve apenas cumpridor e com a arte usual diante de um toiro que não tinha chama e não deu opções.
Pablo Hermoso de Mendoza deu um bonito ar da sua imensa arte no terceiro toiro da corrida, fazendo alarde da sua raça de grande lidador, entusiasmando o público que nunca o deixa de aplaudir e que o adoptou há muito como ídolo incontestado. O quinto toiro, demasiado mole para a grandeza de um toureiro como Pablo e com investidas demasiado defensivas, não lhe permitiu repetir o brilhantismo de outras noites nesta praça.
Guillermo confirmou a alternativa das mãos de seu pai e abriu a corrida lidando um toiro manso e reservado. Sem um triunfo rotundo, deixou contudo apontamentos de beleza e qualidade e sobretudo a certeza de que não acusava o peso de estar a actuar na Catedral do Toureio a Cavalo e em competição com dois monstros sagrados da Tauromaquia. No sexto toiro, como disse anteriormente, um Passanha "à Passanha" e ao melhor tipo da ganadaria, conquistou Guillermo o público lisboeta com uma actuação vibrante numa lide sem tempos mortos e em permanente ligação com o toiro, cravando ferros emotivos e que levantaram o público das bancadas.
Noite grande para os forcados dos dois grupos: Alcochete e Aposento da Moita. Pela formação comandada por Nuno Santana, pegaram António José Cardoso à primeira; Diogo Timóteo à segunda; e Manuel Pinto, também à segunda, numa pega de grande emoção e em que aguentou um derrote altíssimo. Pelos moitenses, foram caras o cabo Leonardo Mathias, que se estreava como tal em Lisboa e executou grande pega à primeira; João Gomes com um pegão à segunda; e Martim Cosme também numa pega perfeita e emotiva à primeira tentativa. O grande e sempre lembrado forcado deste grupo Nuno Carvalho "Mata", que assistia à corrida num camarote, foi brindado pelo público com uma das maiores ovações da noite quando o cabo Leonardo Mathias lhe brindou a sua pega.
Outra das grandes ovações da noite foi para o Maestro João Moura quando Pablo lhe dedicou um ferro.
Dirigiu a corrida Lara Gregório de Oliveira, que conseguiu fazer esquecer alguma desilusão de todos dando à noite um tom mais festivo do que era merecido. Apesar do pouco brilhantismo das lides, não por culpa dos toureiros, mas porque faltaram toiros, todos tiveram música e todos deram voltas à arena. Lisboa já não tem há muitos anos o público exigente e entendedor de outras eras.

Fotos Frederico Henriques e Juan Andrés H. Mendoza