sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Os "porquês" da atribuição dos 8 Troféus "Farpas" a 16 triunfadores



Revelámos ontem quem foram os vencedores dos regressados Troféus "Farpas" - 8 galardões atribuídos, 16 distinguidos. Normalmente entregam-se prémios e não se explica por quê. Nós vamos explicar os "porquês" da nossa escolha.

Troféu "Triunfador da Temporada"

Rui Fernandes - Não que o não merecesse em anos anteriores, mas neste mereceu-o mais. Longe vai o dia em que, levado pelo meu querido amigo Pombeiro, rumei à Charneca da Caparica para conhecer aquele que ele dizia ser "uma figura do futuro". Estava o Rui a dar os primeiros passos, mostrando-se em praças portáteis pela mão do Maestro Chibanga e acabara de revelar-se perante "outros olhos" num ciclo de novilhadas em Vila Franca. Acreditei que estava ali um triunfador em potência - quando muito poucos acreditaram nisso. Os anos passaram e ele consolidou uma posição - marcou a diferença. Vi-o sair em ombros da Monumental de Madrid numa tarde memorável. Vi-o subir, degrau a degrau, até chegar onde esta temporada chegou - ao topo. Rui Fernandes foi o grande e incontestado triunfador de 2011. Em Portugal e também nas praças por onde passou em Espanha, quase sempre saindo em ombros. 2011 foi o "Ano Rui".

João Moura Caetano - Depois da alternativa, no ano de reabertura do Campo Pequeno, esta foi, sem dúvida, a mais sólida, a mais consistente e a mais triunfal temporada do jovem cavaleiro João Moura Caetano. Dos novos, terá sido dos que mais toureou - triunfando em todas as arenas onde se apresentou. Conheceu em 2011 o reverso da medalha, com a trágica morte do seu melhor cavalo, o "Passapé", em Madrid. Superou a adversidade, encastando-se, prosseguindo na luta com a garra e a força dos eleitos. Moralizado, bem montado, impôs a sua personalidade e o seu estilo sem procurar imitações. Tem, por mérito próprio, um lugar conquistado entre os "da frente". Este troféu quer dizer triunfo, mas quer dizer sobretudo consagração. Consagração de um jovem que foi subindo aos poucos o patamar da fama e este ano chegou acima.

Troféu "Carreira/Maestria"

João Moura - Com os Troféus "Carreira/Maestria" quisemos também galardoar, à excepção de João Simões, já retirado das arenas, três outros triunfadores absolutos desta temporada de 2011. Mas mais que isso: premiá-los pelo destaque que tiveram neste ano e, sobretudo, pelas suas brilhantes trajectórias ao longo de mais de 30 anos das arenas. O primeiro é o Maestro João Moura, ainda e sempre o "número um". Em Santarém, Lisboa e Montijo, para lembrar apenas estas três catedrais da tauromaquia, deu lições "do outro mundo". Com 52 anos, mais de 30 de carreira profissional, João Moura mantém inalterável o seu estatuto de "primeiro dos primeiros". Chegar e impor-se não é difícil, difícil é conseguir o que ele conseguiu: manter-se ao fim de 30 anos como se estivesse nos tempos primeiros.

António Ribeiro Telles - Mantendo-se rigorosamente fiel ao seu estilo clássico, sem entrar "nas modas", por mais "arriscado" que isso fosse num momento em que o "folclore" se sobrepõe, aos olhares do grande público, ao rigor da técnica antiga do toureio a cavalo, António prosseguiu sempre a sua trajectória sem se afastar um milímetro do seu conceito de tourear. Este ano, como em anos anteriores, impôs a sua raça e a verdade da sua arte em muitas tardes e muitas noites. Foi um triunfador nato, também, sem dúvida. Estre troféu premeia a sua temporada de 2011 - e distingue uma carreira de glória nas arenas.

Vitor Mendes - 30 anos passados sobre a sua alternativa, na mesma arena, a da "desaparecida" Monumental de Barcelona, onde anos antes terminara, de forma trágica, o sonho de muitos aficionados e o sonho, sobretudo, de um toureiro que se estava a impor entre os grandes, José Falcão, o Maestro Vitor Mendes continua a ser, ainda e sempre, o primeiro do nosso toureio a pé. Passaram - e estão - a seu lado "montes" de jovens, uns mais destacados, outros menos, que alimentam o sonho de ser figuras, de ser matadores de toiros, outros já o são, mas nenhum, ainda, atingiu a nível mundial o patamar alcançado pelo grande Vitor Mendes. Em 2011 - Lisboa, Caldas, Vila Franca e Redondo - voltou a marcar terreno, voltou a triunfar como dantes, voltou a dizer, se dúvidas ainda existissem, que o primeiro continua a ser ele. Outro troféu que o distingue como triunfador em 2011, mas sobretudo como triunfador de uma vida, de uma carreira sem igual.

João Simões - Não foi triunfador em 2011 pela simples razão de que já não se encontra no activo. Este troféu distingue os muitos anos de João Simões nas arenas. Primeiro, como valente forcado. Depois, como cabo, condutor de homens, dinamizador e continuador da obra criada por José Manuel Pires da Costa, seguida por Manuel Vieira Duque e consolidada por ele - o Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita. Este ano não premiámos forcados nem grupos de forcados. Seria hipocrisia fazê-lo se há dois anos a Associação Nacional de Grupos de Forcados (que, para todos os efeitos e apesar de na realidade não ser assim, representa a maioria dos grupos) cortou relações com o "Farpas". Mas não quisemos deixar de ter representada na nossa Gala de Entrega de Prémios a imagem do forcado amador, a imagem da nobre arte de pegar toiros. João Simões merece, pela sua trajectória em prol da Festa e em prol, acima de tudo, da boa imagem dos forcados, este prémio. Já estava atribuido, para que não restem dúvidas de espécie alguma, muito antes de se decidir que o jantar de entrega dos troféus seria no seu restaurante - era para ser num hotel. Assim será ainda melhor e mais significativo: recebe-o em casa, entre os seus.

Troféu "Futuro da Festa"

Duarte Pinto - O futuro da Festa de Toiros avista-se nas carreiras dos jovens que vão surgindo, que se vão impondo e que vão dando continuidade à arte, garantindo que ela não acabará, assegurando que deles surgirá a próxima página que se vai escrever na História da Tauromaquia. Dos mais jovens cavaleiros de alternativa (e muitos há que se estão a impor), Duarte Pinto tem sido, quanto a nós, o que mais se destaca. Não anda por atalhos, vai direito pelo caminho certo. Triunfou esta temporada em todas as arenas onde actuou. É mais que justo, por isso, louvá-lo e distingui-lo como um dos mais sólidos pilares do futuro da nossa Festa. Seguidor de um nome que fez história nas arenas, seu Pai Emídio Pinto e que também se impôs num tempo em que havia consagrados ainda a deitar cartas - Batista, Veiga, Zoio, Oliveira, Moura a surgir e muitos mais - o jovem Duarte foi, dos novos, um dos grandes e sólidos triunfadores deste ano, confirmando, aliás, o rasto de sucesso que deixara na época anterior: consolidando-o.

Tiago Santos - Apareceu de repente. Foi na novilhada do Campo Pequeno, em Junho, que surpreendeu tudo e todos. Artista, poderoso, gracioso e, acima de tudo, com umas ganas e uma vontade férrea de vencer. Aluno do Maestro Vitor Mendes na Escola de Toureio "José Falcão" de Vila Franca, ainda novilheiro praticante, o jovem Tiago Santos marcou nas arenas por onde passou. Mais: não se conformou com a carreira apenas "à porta de casa", saltou fronteiras, foi triunfar a Espanha, hoje mesmo, sexta-feira, toureia em França (Saint-Sever). Há, sabemos que há, mais valores novos no toureio a pé, alguns já matadores, outros a caminho de o ser e com provas também dadas em arenas de importância no mundo taurino, mas Tiago Santos foi em 2011 o melhor dos sinais de que o toureio a pé pode ter futuro.

David Gomes - Antigo praticante de Dressage e Equitação do Trabalho, David Gomes estreou-se este ano nas arenas como cavaleiro amador, sob a batuta de Jorge D'Almeida, cavaleiro tauromáquico de Almeirim, seu mestre. Em Vila Franca, duas vezes e na Malveira, sua terra, onde actuou ao lado do Maestro Moura, bem como noutras praças, demonstrou que não vai ser "mais um". Destacou-se, num ano em que também triunfaram outros cavaleiros amadores, num ano em que surgiu uma prometedora fornada de jovens capazes de garantir o futuro depois do próximo futuro. Que este troféu seja para o David um incentivo e marque o reconhecimento com que os aficionados o receberam esta temporada nas arenas. A prova de praticante acontecerá no início da próxima época. Outros desafios o esperam. Que o Troféu "Farpas" o acompanhe na memória e sirva para o lembrar: acreditamos em ti, David!

Troféu "Toiro Bravo"

Pinto Barreiros - Num ano marcado por algum excesso (injustificado e, acima de tudo, não correspondido...) de presença de toiros espanhóis em arenas lusas, há que reconhecer e louvar a excelente forma de muitas ganadarias nacionais. É mesmo preciso fazê-lo. Houve outras que se destacaram e que por certo eram merecedoras deste troféu - reconhecemos, não temos dúvida. Mas não se podem premiar todas. Elegemos a de Pinto Barreiros, propriedade do conceituado e escrupuloso ganadeiro Joaquim Alves, cujos toiros se destacaram em muitas corridas. Lembramos duas: a das Dinastias no Campo Pequeno e o toiro lidado em último lugar por Salgueiro da Costa; e a de Setembro em Montemor-o-Novo. Com este prémio, prestamos tributo ao ganadeiro e à ganadaria - mas também queremos que ele homenageie a memória de Sua Mulher, Maria Filomena Capela Lopes de Andrade, uma das melhores aficionadas que conhecemos e que infelizmente nos deixou há um ano.

Troféu "Melhor Promoção/Difusão da Festa"

Sociedade Campo Pequeno - Comparada com anos anteriores, esta nem foi, talvez, a melhor das melhores temporadas do Campo Pequeno. Houve azares, figuras que estavam anunciadas e faltaram (Talavante, Cayetano Ordoñez e Cartagena), mas disso a empresa não teve culpa. No entanto, se referirmos a promoção e a difusão da Festa de Toiros, temos que reconhecer que a Sociedade Campo Pequeno continua na dianteira. Mercê de um excelente trabalho (já lá vamos mais adiante), o Campo Pequeno continua na moda - sem dúvida. A promoção, quer através das televisões, quer por meio das revistas sociais, tem sido primorosa e eficiente. Mas sobretudo o que se destaca é a obra feita, notável, temporada após temporada, desde que a praça reabriu. Lisboa continua a ser o espelho da temporada.

"Aplaudir" - Gerindo as principais praças do país - com especial referência às Monumentais de Santarém e do Montijo - rodeado de uma eficiente e dinâmica equipa (pequena, mas boa, em que sobressaiam Luis Miguel Pombeiro e F. Marques "Chalana"), João Pedro Bolota transformou-se, em poucos anos, de um dos melhores forcados, num dos mais apreciados empresários taurinos. Conhecido como "o das praças cheias", justificou esse estatuto pela seriedade e pela extraordinária promoção dos seus espectáculos. Outras empresas há, também, inteiramente merecedoras de uma distinção semelhante, mas a "Aplaudir" destacou-se pela diferença. Reabriu quatro praças em 2011 (Setúbal, Idanha-a-Nova, Santo António das Areias e Azambuja), organizou grandes cartéis com as primeiras figuras e deu oportunidades a muitos novos noutras corridas. Promoveu e difundiu a Festa com uma dinâmica invejável.

"Aficcion" - Sem ser propriamente um empresário tauromáquico, não gerindo praças nem montando corridas, António Nunes marcou a temporada de 2011 destacando-se como empresário inovador na forma de promover a arte tauromáquica e as corridas de toiros - como nunca se tinha visto em Portugal e, se calhar, no mundo. Camions Tir publicitando toureiros e corridas, outdoor's espalhados em pontos estratégios pelo país inteiro, outdoor's aquáticos promovendo touradas nas praias durante o Verão, até o lançamento do "Vinho do Aficionado" e de tolhas de mesa (ocorrido no Hotel "Grande Vip/Lisboa" na Av. 5 de Outubro) com o rótulo e o cartaz de uma das corridas da temporada do Campo Pequeno, entre outros meios, foram as "armas" que utilizou e vai continuar a utilizar para difundir e promover a Festa Brava. Notável, ainda, a forma como publicitou as duas corridas no Montijo em que actuou o matador que apodera, o sevilhano Octávio Chacón. António Nunes fez o que ninguém tinha feito - e demonstrou que pode ir mais além, muito mais, neste mundo da tauromaquia.

Troféu "Taurino do Ano"

Rui Bento Vasquez - Com dignidade, pôs o lugar à disposição da administração da Sociedade Campo Pequeno no final da temporada - mas obviamente que os empresários lhe renovaram o voto de confiança para prosseguir. É, desde a reabertura da praça, o homem certo no lugar certo - isso nunca nos cansámos de reafirmar, mesmo estando de relações cortadas com a empresa e com ele próprio. Uma coisa não tem a ver com a outra. Sabemos, soubemos sempre, distinguir. Ao antigo matador de toiros se deve o sucesso do Campo Pequeno e a renovação de aficionados e de público na Festa. Não só na primeira praça do país, mas também nas outras geridas pela empresa, Rui Bento marcou - esta e outras temporadas - pela distinção, pela sobriedade e pelo prestígio das organizações que montou. Este troféu distingue o seu desempenho nesta temporada, mas presta tributo, acima de tudo, ao seu trabalho nos últimos anos à frente do Campo Pequeno. Prémio merecido - mas sobretudo, prémio justíssimo.

Troféu "Valor e Arte"

Fermín Bohórquez - Quisemos homenagear e premiar também uma figura internacional. Mais acima do vulgar estatuto de triunfador de uma temporada, que muitos atribuirão, com inteiro mérito, a outros rejoneadores "na berra", atribuimos o Troféu "Valor e Arte" ao veterano rejoneador Fermín Bohórquez, paradigma do classicismo, da maestria e, principalmente, do valor e da arte que distinguem os eleitos no mundo da tauromaquia. Dizem os amigos, por graça, que nem tempo teve ainda para casar. Dedicou toda uma vida à tauromaquia: quer como criador de cavalos e de toiros, quer especialmente como toureiro. Nunca virou a cara a actuar em Portugal e a competir de igual para igual com os maiores. Ainda este ano se deslocou a Alcochete, no início da temporada, desinteressadamente, para engrandecer com a sua arte e o seu valor o cartel do festival a favor da associação "Abrigo". Agora virá de novo a Portugal para receber a homenagem que todos lhe devemos.

Troféu "Aficion/Reconhecimento"

Dr. Elísio Summavielle - Longe vão os tempos em que o então presidente da República, Almirante Américo Thomaz, honrava e dignificava a tauromaquia com assíduas presenças nas corridas do Campo Pequeno e até noutras praças. Foram poucos, depois do "25 de Abril", os políticos que não tiveram complexos em dar a cara pela tradição e pela cultura tauromáquica, comparecendo nas praças, convivendo com os homens dos toiros. Sá Carneiro foi o único primeiro-ministro que desceu a uma arena no intervalo de uma corrida (em Santarém, na tarde de alternativa de Paulo Caetano) para cumprimentar os toureiros. Santana Lopes, enquanto secretário de Estado da Cultura (e não só) encarou a tauromaquia como uma arte a respeitar e uma tradição a cultivar. Jorge Sampaio marcou presença em muitas corridas e também esteve na arena do Campo Pequeno, quando presidente da Câmara de Lisboa - sem complexos. Mais recentemente, o ex-secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, deu outra vez o exemplo - e a cara, pela Festa Brava. Respeitou a tradição, honrou a cultura - com aficion, reafirmando sempre que era e é aficionado, continuando a marcar presença nas corridas. Honrando-nos. Outros já o fizeram - e ainda bem. Nós ainda não lhe tínhamos agradecido. É a hora de reconhecermos o seu exemplo. E a força que tem dado, num tempo talvez mais difícil que outro, à arte tauromáquica. Bem haja!

Foto D.R.