Revelámos ontem quem foram os vencedores
dos regressados Troféus "Farpas" - 8 galardões atribuídos, 16
distinguidos. Normalmente entregam-se prémios e não se explica por quê. Nós
vamos explicar os "porquês" da nossa escolha.
Troféu "Triunfador da Temporada"
Rui Fernandes - Não que o não merecesse
em anos anteriores, mas neste mereceu-o mais. Longe vai o dia em que, levado
pelo meu querido amigo Pombeiro, rumei à Charneca da Caparica para conhecer
aquele que ele dizia ser "uma figura do futuro". Estava o Rui a dar
os primeiros passos, mostrando-se em praças portáteis pela mão do Maestro
Chibanga e acabara de revelar-se perante "outros olhos" num ciclo de
novilhadas em Vila Franca. Acreditei que estava ali um triunfador em potência -
quando muito poucos acreditaram nisso. Os anos passaram e ele consolidou uma
posição - marcou a diferença. Vi-o sair em ombros da Monumental de Madrid numa
tarde memorável. Vi-o subir, degrau a degrau, até chegar onde esta temporada
chegou - ao topo. Rui Fernandes foi o grande e incontestado triunfador de 2011.
Em Portugal e também nas praças por onde passou em Espanha, quase sempre saindo
em ombros. 2011 foi o "Ano Rui".
João Moura Caetano - Depois da
alternativa, no ano de reabertura do Campo Pequeno, esta foi, sem dúvida, a
mais sólida, a mais consistente e a mais triunfal temporada do jovem cavaleiro
João Moura Caetano. Dos novos, terá sido dos que mais toureou - triunfando em
todas as arenas onde se apresentou. Conheceu em 2011 o reverso da medalha, com
a trágica morte do seu melhor cavalo, o "Passapé", em Madrid. Superou
a adversidade, encastando-se, prosseguindo na luta com a garra e a força dos
eleitos. Moralizado, bem montado, impôs a sua personalidade e o seu estilo sem
procurar imitações. Tem, por mérito próprio, um lugar conquistado entre os
"da frente". Este troféu quer dizer triunfo, mas quer dizer sobretudo
consagração. Consagração de um jovem que foi subindo aos poucos o patamar da
fama e este ano chegou acima.
Troféu "Carreira/Maestria"
João Moura - Com os Troféus
"Carreira/Maestria" quisemos também galardoar, à excepção de João
Simões, já retirado das arenas, três outros triunfadores absolutos desta
temporada de 2011. Mas mais que isso: premiá-los pelo destaque que tiveram
neste ano e, sobretudo, pelas suas brilhantes trajectórias ao longo de mais de
30 anos das arenas. O primeiro é o Maestro João Moura, ainda e sempre o
"número um". Em Santarém, Lisboa e Montijo, para lembrar apenas estas
três catedrais da tauromaquia, deu lições "do outro mundo". Com 52
anos, mais de 30 de carreira profissional, João Moura mantém inalterável o seu
estatuto de "primeiro dos primeiros". Chegar e impor-se não é
difícil, difícil é conseguir o que ele conseguiu: manter-se ao fim de 30 anos
como se estivesse nos tempos primeiros.
António Ribeiro Telles - Mantendo-se
rigorosamente fiel ao seu estilo clássico, sem entrar "nas modas",
por mais "arriscado" que isso fosse num momento em que o
"folclore" se sobrepõe, aos olhares do grande público, ao rigor da
técnica antiga do toureio a cavalo, António prosseguiu sempre a sua trajectória
sem se afastar um milímetro do seu conceito de tourear. Este ano, como em anos
anteriores, impôs a sua raça e a verdade da sua arte em muitas tardes e muitas
noites. Foi um triunfador nato, também, sem dúvida. Estre troféu premeia a sua
temporada de 2011 - e distingue uma carreira de glória nas arenas.
Vitor Mendes - 30 anos passados sobre a
sua alternativa, na mesma arena, a da "desaparecida" Monumental de
Barcelona, onde anos antes terminara, de forma trágica, o sonho de muitos
aficionados e o sonho, sobretudo, de um toureiro que se estava a impor entre os
grandes, José Falcão, o Maestro Vitor Mendes continua a ser, ainda e sempre, o
primeiro do nosso toureio a pé. Passaram - e estão - a seu lado
"montes" de jovens, uns mais destacados, outros menos, que alimentam
o sonho de ser figuras, de ser matadores de toiros, outros já o são, mas
nenhum, ainda, atingiu a nível mundial o patamar alcançado pelo grande Vitor
Mendes. Em 2011 - Lisboa, Caldas, Vila Franca e Redondo - voltou a marcar
terreno, voltou a triunfar como dantes, voltou a dizer, se dúvidas ainda
existissem, que o primeiro continua a ser ele. Outro troféu que o distingue
como triunfador em 2011, mas sobretudo como triunfador de uma vida, de uma
carreira sem igual.
João Simões - Não foi triunfador em 2011
pela simples razão de que já não se encontra no activo. Este troféu distingue
os muitos anos de João Simões nas arenas. Primeiro, como valente forcado.
Depois, como cabo, condutor de homens, dinamizador e continuador da obra criada
por José Manuel Pires da Costa, seguida por Manuel Vieira Duque e consolidada
por ele - o Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita. Este ano não
premiámos forcados nem grupos de forcados. Seria hipocrisia fazê-lo se há dois
anos a Associação Nacional de Grupos de Forcados (que, para todos os efeitos e
apesar de na realidade não ser assim, representa a maioria dos grupos) cortou
relações com o "Farpas". Mas não quisemos deixar de ter representada
na nossa Gala de Entrega de Prémios a imagem do forcado amador, a imagem da
nobre arte de pegar toiros. João Simões merece, pela sua trajectória em prol da
Festa e em prol, acima de tudo, da boa imagem dos forcados, este prémio. Já
estava atribuido, para que não restem dúvidas de espécie alguma, muito antes de
se decidir que o jantar de entrega dos troféus seria no seu restaurante - era
para ser num hotel. Assim será ainda melhor e mais significativo: recebe-o em
casa, entre os seus.
Troféu "Futuro da Festa"
Duarte Pinto - O futuro da Festa de
Toiros avista-se nas carreiras dos jovens que vão surgindo, que se vão impondo
e que vão dando continuidade à arte, garantindo que ela não acabará,
assegurando que deles surgirá a próxima página que se vai escrever na História
da Tauromaquia. Dos mais jovens cavaleiros de alternativa (e muitos há que se
estão a impor), Duarte Pinto tem sido, quanto a nós, o que mais se destaca. Não
anda por atalhos, vai direito pelo caminho certo. Triunfou esta temporada em
todas as arenas onde actuou. É mais que justo, por isso, louvá-lo e
distingui-lo como um dos mais sólidos pilares do futuro da nossa Festa.
Seguidor de um nome que fez história nas arenas, seu Pai Emídio Pinto e que
também se impôs num tempo em que havia consagrados ainda a deitar cartas -
Batista, Veiga, Zoio, Oliveira, Moura a surgir e muitos mais - o jovem Duarte
foi, dos novos, um dos grandes e sólidos triunfadores deste ano, confirmando,
aliás, o rasto de sucesso que deixara na época anterior: consolidando-o.
Tiago Santos - Apareceu de repente. Foi
na novilhada do Campo Pequeno, em Junho, que surpreendeu tudo e todos. Artista,
poderoso, gracioso e, acima de tudo, com umas ganas e uma vontade férrea de
vencer. Aluno do Maestro Vitor Mendes na Escola de Toureio "José Falcão"
de Vila Franca, ainda novilheiro praticante, o jovem Tiago Santos marcou nas
arenas por onde passou. Mais: não se conformou com a carreira apenas "à
porta de casa", saltou fronteiras, foi triunfar a Espanha, hoje mesmo,
sexta-feira, toureia em França (Saint-Sever). Há, sabemos que há, mais valores
novos no toureio a pé, alguns já matadores, outros a caminho de o ser e com
provas também dadas em arenas de importância no mundo taurino, mas Tiago Santos
foi em 2011 o melhor dos sinais de que o toureio a pé pode ter futuro.
David Gomes - Antigo praticante de
Dressage e Equitação do Trabalho, David Gomes estreou-se este ano nas arenas
como cavaleiro amador, sob a batuta de Jorge D'Almeida, cavaleiro tauromáquico
de Almeirim, seu mestre. Em Vila Franca, duas vezes e na Malveira, sua terra,
onde actuou ao lado do Maestro Moura, bem como noutras praças, demonstrou que
não vai ser "mais um". Destacou-se, num ano em que também triunfaram
outros cavaleiros amadores, num ano em que surgiu uma prometedora fornada de jovens
capazes de garantir o futuro depois do próximo futuro. Que este troféu seja
para o David um incentivo e marque o reconhecimento com que os aficionados o
receberam esta temporada nas arenas. A prova de praticante acontecerá no início
da próxima época. Outros desafios o esperam. Que o Troféu "Farpas" o
acompanhe na memória e sirva para o lembrar: acreditamos em ti, David!
Troféu "Toiro Bravo"
Pinto Barreiros - Num ano marcado por
algum excesso (injustificado e, acima de tudo, não correspondido...) de
presença de toiros espanhóis em arenas lusas, há que reconhecer e louvar a
excelente forma de muitas ganadarias nacionais. É mesmo preciso fazê-lo. Houve
outras que se destacaram e que por certo eram merecedoras deste troféu -
reconhecemos, não temos dúvida. Mas não se podem premiar todas. Elegemos a de
Pinto Barreiros, propriedade do conceituado e escrupuloso ganadeiro Joaquim
Alves, cujos toiros se destacaram em muitas corridas. Lembramos duas: a das
Dinastias no Campo Pequeno e o toiro lidado em último lugar por Salgueiro da
Costa; e a de Setembro em Montemor-o-Novo. Com este prémio, prestamos tributo
ao ganadeiro e à ganadaria - mas também queremos que ele homenageie a memória
de Sua Mulher, Maria Filomena Capela Lopes de Andrade, uma das melhores aficionadas que conhecemos e que infelizmente
nos deixou há um ano.
Troféu "Melhor Promoção/Difusão da
Festa"
Sociedade Campo Pequeno - Comparada com
anos anteriores, esta nem foi, talvez, a melhor das melhores temporadas do
Campo Pequeno. Houve azares, figuras que estavam anunciadas e faltaram
(Talavante, Cayetano Ordoñez e Cartagena), mas disso a empresa não teve culpa.
No entanto, se referirmos a promoção e a difusão da Festa de Toiros, temos que
reconhecer que a Sociedade Campo Pequeno continua na dianteira. Mercê de um
excelente trabalho (já lá vamos mais adiante), o Campo Pequeno continua na moda
- sem dúvida. A promoção, quer através das televisões, quer por meio das
revistas sociais, tem sido primorosa e eficiente. Mas sobretudo o que se
destaca é a obra feita, notável, temporada após temporada, desde que a praça
reabriu. Lisboa continua a ser o espelho da temporada.
"Aplaudir" - Gerindo as
principais praças do país - com especial referência às Monumentais de Santarém
e do Montijo - rodeado de uma eficiente e dinâmica equipa (pequena, mas boa, em
que sobressaiam Luis Miguel Pombeiro e F. Marques "Chalana"), João
Pedro Bolota transformou-se, em poucos anos, de um dos melhores forcados, num
dos mais apreciados empresários taurinos. Conhecido como "o das praças
cheias", justificou esse estatuto pela seriedade e pela extraordinária
promoção dos seus espectáculos. Outras empresas há, também, inteiramente
merecedoras de uma distinção semelhante, mas a "Aplaudir" destacou-se
pela diferença. Reabriu quatro praças em 2011 (Setúbal, Idanha-a-Nova, Santo António
das Areias e Azambuja), organizou grandes cartéis com as primeiras figuras e
deu oportunidades a muitos novos noutras corridas. Promoveu e difundiu a Festa
com uma dinâmica invejável.
"Aficcion" - Sem ser
propriamente um empresário tauromáquico, não gerindo praças nem montando
corridas, António Nunes marcou a temporada de 2011 destacando-se como
empresário inovador na forma de promover a arte tauromáquica e as corridas de
toiros - como nunca se tinha visto em Portugal e, se calhar, no mundo. Camions
Tir publicitando toureiros e corridas, outdoor's espalhados em pontos
estratégios pelo país inteiro, outdoor's aquáticos promovendo touradas nas
praias durante o Verão, até o lançamento do "Vinho do Aficionado" e
de tolhas de mesa (ocorrido no Hotel "Grande Vip/Lisboa" na Av. 5 de
Outubro) com o rótulo e o cartaz de uma das corridas da temporada do Campo
Pequeno, entre outros meios, foram as "armas" que utilizou e vai
continuar a utilizar para difundir e promover a Festa Brava. Notável, ainda, a
forma como publicitou as duas corridas no Montijo em que actuou o matador que
apodera, o sevilhano Octávio Chacón. António Nunes fez o que ninguém tinha
feito - e demonstrou que pode ir mais além, muito mais, neste mundo da
tauromaquia.
Troféu "Taurino do Ano"
Rui Bento Vasquez - Com dignidade, pôs o
lugar à disposição da administração da Sociedade Campo Pequeno no final da
temporada - mas obviamente que os empresários lhe renovaram o voto de confiança
para prosseguir. É, desde a reabertura da praça, o homem certo no lugar certo -
isso nunca nos cansámos de reafirmar, mesmo estando de relações cortadas com a
empresa e com ele próprio. Uma coisa não tem a ver com a outra. Sabemos,
soubemos sempre, distinguir. Ao antigo matador de toiros se deve o sucesso do
Campo Pequeno e a renovação de aficionados e de público na Festa. Não só na
primeira praça do país, mas também nas outras geridas pela empresa, Rui Bento
marcou - esta e outras temporadas - pela distinção, pela sobriedade e pelo
prestígio das organizações que montou. Este troféu distingue o seu desempenho
nesta temporada, mas presta tributo, acima de tudo, ao seu trabalho nos últimos
anos à frente do Campo Pequeno. Prémio merecido - mas sobretudo, prémio
justíssimo.
Troféu "Valor e Arte"
Fermín Bohórquez - Quisemos homenagear e
premiar também uma figura internacional. Mais acima do vulgar estatuto de
triunfador de uma temporada, que muitos atribuirão, com inteiro mérito, a
outros rejoneadores "na berra", atribuimos o Troféu "Valor e
Arte" ao veterano rejoneador Fermín Bohórquez, paradigma do classicismo,
da maestria e, principalmente, do valor e da arte que distinguem os eleitos no
mundo da tauromaquia. Dizem os amigos, por graça, que nem tempo teve ainda para
casar. Dedicou toda uma vida à tauromaquia: quer como criador de cavalos e de
toiros, quer especialmente como toureiro. Nunca virou a cara a actuar em
Portugal e a competir de igual para igual com os maiores. Ainda este ano se
deslocou a Alcochete, no início da temporada, desinteressadamente, para
engrandecer com a sua arte e o seu valor o cartel do festival a favor da associação
"Abrigo". Agora virá de novo a Portugal para receber a homenagem que
todos lhe devemos.
Troféu
"Aficion/Reconhecimento"
Dr. Elísio Summavielle - Longe vão os
tempos em que o então presidente da República, Almirante Américo Thomaz,
honrava e dignificava a tauromaquia com assíduas presenças nas corridas do
Campo Pequeno e até noutras praças. Foram poucos, depois do "25 de
Abril", os políticos que não tiveram complexos em dar a cara pela tradição
e pela cultura tauromáquica, comparecendo nas praças, convivendo com os homens
dos toiros. Sá Carneiro foi o único primeiro-ministro que desceu a uma arena no
intervalo de uma corrida (em Santarém, na tarde de alternativa de Paulo
Caetano) para cumprimentar os toureiros. Santana Lopes, enquanto secretário de Estado
da Cultura (e não só) encarou a tauromaquia como uma arte a respeitar e uma
tradição a cultivar. Jorge Sampaio marcou presença em muitas corridas e também
esteve na arena do Campo Pequeno, quando presidente da Câmara de Lisboa - sem
complexos. Mais recentemente, o ex-secretário de Estado da Cultura, Elísio
Summavielle, deu outra vez o exemplo - e a cara, pela Festa Brava. Respeitou a
tradição, honrou a cultura - com aficion, reafirmando sempre que era e é
aficionado, continuando a marcar presença nas corridas. Honrando-nos. Outros já
o fizeram - e ainda bem. Nós ainda não lhe tínhamos agradecido. É a hora de
reconhecermos o seu exemplo. E a força que tem dado, num tempo talvez mais
difícil que outro, à arte tauromáquica. Bem haja!
Foto D.R.

