Miguel Alvarenga - João Salgueiro tem
tanto de genial como de louco. O que faz e o que diz, independentemente de
quando e como o faz e o diz, não deixa nunca ninguém indiferente. As suas
palavras, ontem, na entrevista a Catarina Bexiga no programa digital "Falar
de Toiros", merecem meia dúzia de comentários. Pela pertinência, pela
loucura que traduzem.
Salgueiro tem saudades do bom tempo. Mas
disso, temos todos. Tem saudades de bons hotéis, de bons restaurantes e de bons
carros. Todos temos. Tem saudades dos bons apoderados. Temos todos. Ao dizê-lo,
não deixa de expressar alguma falta de respeito pelo que era seu actual
apoderado, Ricardo Levesinho. Mas não lhe fica mal dizer que tem saudades de
Camacho, de Rogério Amaro e dos apoderados bem vestidos na trincheira (hoje,
alguns até por lá se passeiam em fralda de camisa e desbarrigados...). Do que
Salgueiro tem saudades, todos nós temos também. Resta saber se esse saudosismo
justifica a desistência.
O país está em crise, o mundo está em
crise. Temos todos pena, temos todos consciência disso, mas é preciso que todos
lutemos para ir para a frente. Se todos fizéssemos como fez Salgueiro,
arrumando a botas e desistindo, isto acabava de uma vez por todas.
Salgueiro esqueceu-se de que é uma
figura pública. E de que, por isso, as suas comunicações se transformam em
comunicações públicas. Salgueiro tem saudades dos tempos em que não havia
crise. Temos todos. Mas não fechamos a porta e nos vamos embora só porque
acabaram os bons hotéis, os bons restaurantes e os bons carros.
Salgueiro disse as verdades que
incomodam. É indiscutível. Mas isso não serve de explicção, e muito menos de
justificação, para o facto de ter decidido ir embora e de ter deixado
pendurados os empresários com quem tinha compromissos assumidos.
Salgueiro não de identifica com a Festa
actual. É natural. Mas é a Festa que temos e a Festa onde vai tentar vingar o
seu próprio filho.
Ao dizer o que disse, Salgueiro não só
deu a ideia de que nos quis transmitir uma desculpa esfarrapada para justificar
a sua desistência, como ainda condenou à nascença um futuro, que deveria sonhar
risonho, para o seu filho João.
Em suma, Salgueiro foi desconcertante,
foi irreverente, foi brutal, como sempre. Mas também foi muito infeliz ao
justificar o seu descontentamento e a sua desilusão, que transformou em pura
desistência, pelas saudades de um passado em que foi grande. Mas já não é. Nem
o passado, nem ele.
Foto M. Alvarenga

