quinta-feira, 15 de maio de 2014

As saudades de Salgueiro... e se desistíssemos todos também?



Miguel Alvarenga - João Salgueiro tem tanto de genial como de louco. O que faz e o que diz, independentemente de quando e como o faz e o diz, não deixa nunca ninguém indiferente. As suas palavras, ontem, na entrevista a Catarina Bexiga no programa digital "Falar de Toiros", merecem meia dúzia de comentários. Pela pertinência, pela loucura que traduzem.
Salgueiro tem saudades do bom tempo. Mas disso, temos todos. Tem saudades de bons hotéis, de bons restaurantes e de bons carros. Todos temos. Tem saudades dos bons apoderados. Temos todos. Ao dizê-lo, não deixa de expressar alguma falta de respeito pelo que era seu actual apoderado, Ricardo Levesinho. Mas não lhe fica mal dizer que tem saudades de Camacho, de Rogério Amaro e dos apoderados bem vestidos na trincheira (hoje, alguns até por lá se passeiam em fralda de camisa e desbarrigados...). Do que Salgueiro tem saudades, todos nós temos também. Resta saber se esse saudosismo justifica a desistência.
O país está em crise, o mundo está em crise. Temos todos pena, temos todos consciência disso, mas é preciso que todos lutemos para ir para a frente. Se todos fizéssemos como fez Salgueiro, arrumando a botas e desistindo, isto acabava de uma vez por todas.
Salgueiro esqueceu-se de que é uma figura pública. E de que, por isso, as suas comunicações se transformam em comunicações públicas. Salgueiro tem saudades dos tempos em que não havia crise. Temos todos. Mas não fechamos a porta e nos vamos embora só porque acabaram os bons hotéis, os bons restaurantes e os bons carros.
Salgueiro disse as verdades que incomodam. É indiscutível. Mas isso não serve de explicção, e muito menos de justificação, para o facto de ter decidido ir embora e de ter deixado pendurados os empresários com quem tinha compromissos assumidos.
Salgueiro não de identifica com a Festa actual. É natural. Mas é a Festa que temos e a Festa onde vai tentar vingar o seu próprio filho.
Ao dizer o que disse, Salgueiro não só deu a ideia de que nos quis transmitir uma desculpa esfarrapada para justificar a sua desistência, como ainda condenou à nascença um futuro, que deveria sonhar risonho, para o seu filho João.
Em suma, Salgueiro foi desconcertante, foi irreverente, foi brutal, como sempre. Mas também foi muito infeliz ao justificar o seu descontentamento e a sua desilusão, que transformou em pura desistência, pelas saudades de um passado em que foi grande. Mas já não é. Nem o passado, nem ele.

Foto M. Alvarenga