Miguel Alvarenga - António Cecílio era um homem simples e discreto, era um homem que todos recordamos como bom e não o fazemos só pelo facto de ter morrido, ele era mesmo bom, fazia parte de uma falange antiga de fotógrafos a sério, como os Figueiredos pai e filho, o Carlos Brito, o Luis Azevedo, o Emílio, o Chaparreiro e outros mais, desse tempo em que as máquinas fotográficas não eram "metralhadoras digitais" e se tinha que saber da arte para captar no negativo do rolo o momento exacto. Desse tempo já só resta o Henrique de Carvalho Dias.
Lembro-me do Cecílio com aquele sorriso simples e a sua mala antiga de cabedal ao ombro, lá dentro a velha Nikon F2 que só muito a custo trocou nos tempos modernos por uma digital.
Era raro vê-lo nas praças cá de cima, mas nas do seu Alentejo estava sempre. E em Évora, então, nunca faltava.
Um dia viu-me chegar de Vespa a Beja e não me largou mais. Ficou entusiasmado, recordou os seus tempos antigos, contou-me que também tivera uma Vespa e que andara nela de praça em praça.
Lembro-me da campanha que fizemos (que alguns fizeram e eu fui um deles) a favor dele, há dez anos, naquela temporada de 2015, quando o nosso querido "Nené", que era o empresário de Évora, a praça de eleição do Cecílio, o impediu de fotografar na trincheira porque não tinha Carteira Profissional de Jornalista. Todos Fomos Cecílio!
António Cecílio não precisava de ter Carteira Profissional, era há muitos anos uma referência da fotografia taurina, mas regras são regras e o "Nené" era um empresário sério e rigoroso e foi o primeiro a bater o pé à invasão dos novos retratistas nas trincheiras das praças de toiros, exigindo o documento profissional a quem lhe solicitava uma credencial.
Cecílio foi fotografar para a bancada (foto de cima) e Todos Nós Fomos Cecílio. Isto aconteceu na corrida de Maio (Concurso de Ganadarias) de 2015.
Em Junho desse ano, Cecílio voltou a fotografar na trincheira. E o saudoso António Manuel Cardoso "Nené" explicou ao "Farpas": "Já tornei claro que nas minhas praças só dou credenciais aos fotógrafos com Carteira Profissional de Jornalista, lamento muito mas não abro precedentes. O Senhor Cecílio credenciou-se já, tratou de legalizar-se com esse documento e já lhe dei o acesso à trincheira para a corrida de domingo em Évora".
A nega na corrida anterior desencadear, como já aqui lembrei, um movimento nas redes sociais de solidariedade para com o "Velho Senhor" da fotografia taurina - que nesse domingo de Junho de 2015 regressava, muito justamente, ao seu lugar de sempre (foto de cima).
Na foto de baixo, António Cecílio fotografado com a Velha Guarda: o Duarte Chaparreiro, o Florindo Piteira, o Emílio e o autor destas linhas. Ontem o Florindo publicou esta foto no "Facebook" e referiu que, infelizmente, dos cinco, já só restamos nós dois. A foto está assinada pelo nosso querido Emílio, mas, salvo erro, foi o meu irmão que a tirou (com a máquina do Emílio).
O "Velho Mestre" António Cecílio tinha 91 anos e morreu ontem no lar em Évora onde já residia há uns tempos.
Recordamo-lo com saudade.
Que em paz descanse.
Fotos M. Alvarenga



