
No dia em que se assinala o 40º aniversário da alternativa do Maestro Paulo Caetano, recordamos, em jeito de homenagem ao grande cavaleiro, extractos de uma entrevista que deu ao "Farpas" há cinco anos
- Que recordações, Paulo, daquele dia 15 de Junho de 1980, quando tomaste a alternativa em Santarém?
- Do dia da minha alternativa tenho tantas e tão belas recordações. Lembro-me da Monumental “Celestino Graça” completamente esgotada horas antes do início do espectáculo. Nas ruas, aquele ambiente único das grandes corridas, expectativa e entusiasmo ao rubro. Recordo o António Badajoz ao comando das operações, recordo a força que me deram os meus pais e a minha irmã, recordo o apoio dos meus amigos de Santarém, do Francisco Morgado, do Celso dos Santos, do Edgar Nunes, do Joaquim Nunes, do José Brás, recordo a confiança que sentia ao tourear ao lado do Zé João Zoio, meu padrinho de alternativa, um homem e um toureiro de elite. Recordo a responsabilidade de um cartel de figuras: Zoio, Manuel Jorge de Oliveira, ganadaria Palha, Forcados Amadores de Santarém e Montemor numa Corrida RTP, corridas que o João Moreira de Almeida tinha transformado no mais importante acontecimento de cada temporada.
Recordo a presença de Sá Carneiro, de artistas das mais variadas áreas e da nata da afición portuguesa. Recordo que foi um grande momento mas, acima de tudo, que foi aquele que abriu a possibilidade de viver muitos outros que fazem de mim um homem profundamente grato por ter tido a oportunidade de fazer aquilo de que gosta.
- Alcançaste todas as metas a que te propunhas? O que ficou por fazer?
- Na carreira de um toureiro, o sonho de glória, marca a partida mas as metas não se determinam de forma estanque e calculista. Vão surgindo a cada um dos degraus de uma longa escadaria. No meu caso, fui alcançando objetivos que me pareciam no início inalcançáveis. Depois, uma vez atingida cada uma das etapas, a minha ambição profissional fazia-me sonhar com um novo salto e a minha responsabilidade profissional exigia-me mais e mais trabalho e assim, assumindo riscos, aprendendo permanentemente, treinando sem parar, lá fui chegando.
Eu sou uma pessoa inquieta e intrinsecamente perfeccionista. Quando olho para trás, tenho a certeza de que poderia ter feito melhor e ter ido mais longe. O que me deixa feliz é ter a consciência de que sempre encarei esta arte, que é a minha profissão, com seriedade e dedicação. Dei o melhor de mim, trabalhei sempre incessantemente e procurei fazer o melhor que podia. Respeitei os meus colegas e dediquei-me totalmente a uma paixão da qual consegui ganhar a vida. Sinto-me grato e feliz por isso. Neste momento, não procuro superações, procuro honrar o meu trabalho aperfeiçoando o meu conhecimento e a minha técnica, pois é essa a minha principal motivação, tenho os pés bem assentes na terra.
- Quem foram os grandes pilares da tua carreira, para além, obviamente, de teu Pai, que sempre esteve a teu lado?
- O meu pai tem sido o meu maior pilar de apoio e o meu grande exemplo, a minha mãe a minha alegria e inspiração. Dos dois tenho recebido uma verdadeira preparação para a vida através de princípios tais como: nada se conquista sem trabalho, não há acções sem consequências, o mais importante é o amor e a união da família, nada é realmente nosso a não ser os sentimentos e o conhecimento, de cada amanhecer devemos colher a força que necessitamos para seguir em frente e ser felizes. A família foi sempre o meu grande apoio, a minha irmã, a minha mulher, os meus sogros e cunhados, os meus filhos e sobrinhos. Depois tive o privilégio de ter bons mestres que tiveram a paciência de me ensinar. Nos cavalos e na equitação, de entre outros, o meu tio Fernando Metzner Serra, o Sr. Visconde da Corte e o Eng. João Diogo Parreira Cano; no conhecimento do toiro e do toureio, um sábio, o Maestro António Badajoz; como apoderado, um grande amigo e um homem de corpo inteiro, o inesquecível Raul Nascimento.
A sorte de ter tido amigos verdadeiros como elementos da minha quadrilha também foi extremamente importante para a minha carreira. Tive a sorte de ter conhecido grandes empresários, grandes jornalistas e escritores, grandes artistas, grandes aficionados. Não tenho dúvida de que as pessoas são o património mais importante da minha vida.
Fotos D.R. e Maria Mil-Homens

