sábado, 11 de junho de 2022

Momento épico ontem em Santarém: sequência da pega histórica de Francisco Maria Borges, Forcado de valor "à prova de bomba"

Miguel Alvarenga - Forcado de um valor incontestável e "à prova de bomba", que não hesito em afirmar ser o número-um há muitos anos, Francisco Maria Borges protagonizou ontem na Monumental "Celestino Graça", em Santarém, um momento arrepiante, emocionante e verdadeiramente épico na História dos Forcados.

Frente a toiros "intragáveis" da ganadaria Palha - sérios, a pôr tudo no seu lugar, mas completamente impróprios para consumo e sem as mínimas condições de lide, toiros mais próprios para gladiadores que para toureiros e forcados - os Amadores de Santarém e de Montemor, rivais eternos, não tiveram a tarefa facilitada. Mas como há "agarra bois" e Grupos de Forcados a sério e ambos pertencem ao segundo grupo, acabaram os dois por levar os respectivos barcos a bom porto e as seis pegas, a par do triunfo colossal de Francisco Palha e das actuações empenhadas, esforçadas e cheias de valor, de Luis Rouxinol e João Ribeiro Telles, marcaram a tarde de ontem, tarde de insuportável calor.


Já a seguir, vamos aqui trazer as sequências das restantes pegas, mas para já, fica aqui a actuação heróica do enorme Francisco Maria Borges - com o destaque e o impacto que o seu feito merecem.


O primeiro (que foi pelo caminho e não complicou a pega do primeiro forcado, António de Queiroz e Mello, do Grupo de Santarém), o terceiro e o quatro toiros foram os "mais comestíveis" dos seis - mesmo assim, ásperos, perigosos, com maldade, de investidas indefinidas e a "dar arreões" de salve-se quem puder, e cheios de sentido.


Francisco Maria Borges saltou à arena, com as ganas costumeiras, para pegar o quarto da tarde, que fora lidado por Luis Rouxinol, ontem a comemorar os seus 35 anos de alternativa. Brindou ao público. Citou de largo, de praça a praça, mas foi encurtando a distância, porque o toiro não se arrancava. Cite bonito, com classe, à antiga, como é seu apanágio há muitos anos. Praça em silêncio.


Provoca a investida, o toiro arranca com a velocidade de um comboio e despeja-o num segundo, sem lhe dar tempo a fechar-se. Já com o forcado caído por terra, o toiro foi por ele, Francisco tentou fechar-se na cara, mas sofreu um violentíssimo e alto derrote.


Segunda tentativa, praça de novo em silêncio. Francisco Borges muito bem a recuar, templando como saber e arte a investida, reunindo bem, mas de novo um violento derrote e caiu mal, ficando (por breves instantes) desmaiado na arena. Momentos de angústia e de pânico na praça, a maca a caminho e de repente... levanta-se, meio atordoado, a cambalear, amparado pelos companheiros. Há um troca de palavras com o cabo António Pena Monteiro. Francisco quer ir de novo à cara do toiro. O público divide-se, há os que aplaudem a coragem, a audácia, o estoicismo e o querer defender a sua honra e a honra do seu grupo - e há os que protestam, que gritam e que gesticulam a pedir para ele não ir.


Francisco Maria Borges já passou pelo que passou - e foi muito grave -, tem sido um dos forcados mais maltratados pelos toiros, tem já a idade que tem e um historial para trás que dispensa um acto de heroicidade como este, não precisa de provar nada a ninguém. Mas é um homem e um forcado indomável - e não há nada que o trave.


Todo "esfarrapado", visivelmente diminuído, vai pela terceira vez à cara do toiro, noutros terrenos, agora mais em curto e com as ajudas carregadas. Faz um pegão, salva a honra do convento e sai de novo a cambalear e amparado por companheiros. A praça explode numa calorosa e demorada ovação. 


Depois vem ao centro da arena com Luis Rouxinol, praça toda de pé outra vez, o cavaleiro afasta-se, deixa-lhe o tricórnio e aplaude-o. Francisco agradece, não dá volta à arena (autorizada pelo director Manuel Gama), mas foi para ele a ovação maior da corrida. Quando regressa à trincheira, o público continua de pé a aplaudi-lo. Depois percorre-a até junto de Rouxinol e entrega-lhe o tricórnio, o cavaleiro abraça-o, no regresso até junto do seu grupo, à passagem pelos sectores, continuam espectadores a levantar-se e a ovacioná-lo.


Foi um acto verdadeiramente heróico, a reafirmar o estoicismo, o amor próprio - a si e ao seu grupo -, a coragem e as carradas de valor que vão na alma e no coração deste grande Forcado. 


Aplaudo, tiro-lhe o meu chapéu, tive depois a oportunidade de o felicitar. Mas não posso deixar de escrever isto. Doa a quem doer - e pode doer, mas não me calo, nunca mandei recados por ninguém, escrevo o que sinto.

 

O Regulamento Tauromáquico é (infelizmente) omisso quanto a uma situação destas, mas várias vezes já expressei aqui a minha opinião e insisto: no estado em que Francisco Maria Borges ficou, acabado de recuperar a consciência depois de ter estado uns instantes desmaiado na arena, a terceira - e definitiva - tentativa para pegar o toiro deveria ter sido feita por outro companheiro, a dobrá-lo, e nunca por ele.


Pegar um toiro nas circunstâncias em que Francisco o pegou - pese embora a sua vontade, o seu querer e o seu inquebrável valor - não é só um acto de loucura, é também uma irresponsabilidade de quem lho permitiu fazer. Do cabo do grupo, do director de corrida, do próprio agente de autoridade que se senta a seu lado. Quando um forcado fica diminuído como ele ficou, deveria de imediato ser dobrado por outro. Normalmente não acontece. O que aconteceu ontem, acontece inúmeras vezes.


Eu sei que isso aconteceu toda a vida na História dos Forcados, e sobretudo na dos Grandes Forcados, como Francisco é. Vi muitos erguerem-se do chão e voltarem à cara dos toiros. Mas um dia isso tem que parar. Os tempos mudaram. A tauromaquia não é mais uma guerra de gladiadores. Ontem podia ter havido uma tragédia.


Graças a Deus, tudo acabou em bem. Mas, se não tem acabado, estávamos hoje todos a escrever o quê? E a acusar quem? E a responsabilizar quem? Todos, menos o forcado. Que esse, num momento daqueles, o que tudo quer é salvar a sua honra e a honra do seu grupo. Como o Francisco fez. Pensem nisso, meditem sobre isso e preocupem-se menos com outras coisas que não têm a importância que estas assumem.


Parabéns, Francisco! Foste - és! - um Herói em Santarém!


Fotos M. Alvarenga