Miguel Alvarenga - O cartel era de seis cavaleiros, variado, internacional, quatro portugueses, um mexicano e um espanhol com estilos para todos os gostos. E Arruda dos Vinhos está uma animação com as populares Festas de Santo António. Mesmo assim (não estamos a viver um ano fácil...), o público encheu pouco mais que meia praça na corrida nocturna de ontem - e, depois de um dia de calor, esteve uma noite fresca e com vento, pouco agradável.
Os toiros da ganadaria Prudêncio, com apresentação digna, sem grande bravura, foram sérios, duros sobretudo, com "teclas", exigentes, sem facilitar. Muito no tipo da ganadaria - e eu ainda sou do tempo daquelas corridas "brutais" com Prudêncios nas Vindimas em Almeirim... Toiros-toiros, os de ontem, dos que descompõem. Não foi muito fácil a tarefa dos cavaleiros e dos forcados.
Alguns demoraram a recolher, houve pegas que precisaram de várias tentativas e por tudo isso, mesmo tendo a corrida decorrido sem intervalo, "entrámos na aula" às dez da noite e só de lá saímos já perto da uma da matina... É preciso ter uma paciência de santo.
Artisticamente, a corrida não foi má. Nem muito boa. Houve empenho dos cavaleiros, esforço dos valentes forcados.
Rui Salvador lidou o primeiro toiro, que teve alguma qualidade, com a maestria costumeira. Arriscando, pondo a carne no assador, quem sabe, sabe. Houve "ferros à Salvador". Houve a arte de sempre. Era a sua terceira corrida da temporada, depois de duas em que esteve muito bem. Espécie de vinho do Porto.
O segundo toiro era para Paulo Jorge Santos, entrou meio congestionado, houve alguma hesitação do médico veterinário e do director de corrida, o toiro esteve para ficar, mas o público protestou e foi embora. Paulo Jorge toureou depois em quarto lugar. Já lá vamos.
Saíu o segundo, que era o terceiro, para o mexicano Emiliano Gamero. Eu acreditei que vinha aí Revolução quando o vi pela primeira vez no Redondo. Outros não acreditaram. Se todos gostassem só do amarelo, como eu gosto e alguns toureiros não gostam, dizem que dá azar (até tenho uma Vespa amarela!), o mundo não teria outras cores. Ontem houve Revolução. Emiliano Gamero lidou com saber um toiro que cedo fugiu para tábuas. Toureou-o bem e com rasgos de emoção, depressa pondo o público em alvoroço. Tudo o que fez, fez bem. Ainda não acreditam na Revolução? Acreditem, que Gamero vai animar a temporada nacional. Não é melhor, nem pior que ninguém. É diferente. E era mesmo de coisas diferentes que estávamos a precisar.
Outro toureiro que há já dois anos vem animando o nosso panorama taurino é o espanhol Andrés Romero. Ontem teve pela frente um toiro "manhoso", que se atravessava e complicava. Mas não há toiros maus quando os toureiros são bons. Romero arrimou-se, citou num palmo de terreno, deixou ferros que levantaram o público. Esteve ao seu melhor estilo, sem contudo alcançar o brilhantismo de actuações anteriores por falta de matéria prima. Lide de valor e de entrega.
Paulo Jorge Santos, digo sempre o mesmo, mas é verdade, é um cavaleiro que merece melhor atenção por parte dos empresários - porque tem valor, mas poucos o reconhecem. O quarto toiro não era franco no momento da investida e Paulo Jorge lidou-o com rigor e "à séria", vencendo as dificuldades, demonstrando a sua casta - e o tal valor, que tem para dar e sobrar.
A jovem Mara Pimenta enfrentou um toiro sério, que não facilitava e "metia mudanças". Mas também não esteve ontem ao seu melhor nível. É valente e é ousada, não vira a cara, mas não esteve em noite de muita inspiração. No final, bonito gesto, veio à arena, bateu palmas ao forcado e não quis com ele partilhar a volta, autorizada pelo director.
Fechou a noite, que já ia longa, o sempre valoroso Tristão Ribeiro Telles de Queiroz. O toiro também não foi fácil. E o jovem cavaleiro esteve empenhado, arriscou, andou valente e com aquele toque de arte e de classe que é apanágio dos Ribeiro Telles. Não foi, contudo, uma lide de alto brilho. Mas também não foi uma actuação para ficar entre tábuas e recusar dar volta à arena (autorizada).
Nota alta para as quadrilhas, com destaque especial para a arte de João Pedro Silva (Açoriano), de Ricardo Pedro, de Duarte Alegrete, de João Goilão, de Sérgio Santos "Parrita", de Paco Moreno e de Cláudio Miguel, que reapareceu depois da colhida na Moita.
As pegas, como disse antes, foram duras e não foram fáceis. Houve pelo menos quatro forcados que sairam lesionados, três do grupo do Clube Taurino Alenquerense: Márcio Godinho, que tentou a primeira pega da noite por três vezes; e no terceiro toiro, António Pedro Lourenço, que era o forcado da cara; e o ajuda João Azevedo, que foi transportado ao hospital e, ao que consegui saber, terá sofrido uma fractura de clavícula, felizmente nada muito grave, como se supôs depois de ter ficado inanimado na arena e retirado de maca inconsciente; e um do grupo de Arruda, Hélder Silva, forcado de cara na quinta pega da noite, que terá sofrido uma lesão numa perna.
O concurso de pegas foi ganho (o júri esteve composto pelos cabos dos três grupos), muito merecidamente, por Rodolfo Costa, cabo do grupo anfitrião, que dobrou Hélder Silva e fez um pegão à maneira antiga.
Pelo grupo do Clube Taurino Alenquerense pegaram Joaquim Brás, na sua primeira intervenção, a dobrar Márcio Godinho, que saíu lesionado depois de uma primeira tentativa; e Diogo Trindade (na quarta tentativa no terceiro toiro, que foi a sua primeira), a dobrar António Pedro Lourenço, que fora três vezes à cara do toiro.
Pelos Amadores de Arruda dois Vinhos foram caras Nuno Aniceto à primeira e, como acima referi, o cabo Rodolfo Costa a dobrar Hélder Silva.
Pelos Amadores do Cartaxo pegaram Francisco Gonçalves à primeira e Manuel Silva à segunda.
A corrida foi dirigida acertadamente por José Soares, que esteve ontem assessorado pelo médico veterinário Jorge Moreira da Silva.
Presidiram à corrida o presidente da Câmara de Arruda dos Vinhos, André Rijo, e o presidente da Junta de Freguesia, Fábio Romão.
Foto M. Alvarenga
Já a seguir, não perca as sequências das seis pegas e, depois, os melhores momentos dos seis cavaleiros.

