sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Campo Pequeno: um Moura é um Moura... e Loia voltou a fazer história!

Miguel Moura foi ontem o grande triunfador da Corrida do Emigrante no Campo
Pequeno. Em baixo, Marcelo Loia e João Salvação, os mais destacados da noite
no que à forcadagem diz respeito



Miguel Alvarenga - "Faz-se o que se pode...". Com a humildade dos grandes Homens e a diferente grandeza de um Moura, foi com esta simples frase que Miguel Moura agradeceu ontem, no Hotel Alif, depois da corrida do Campo Pequeno, os inúmeros abraços de parabéns que ia recebendo dos muitos amigos, alguns toureiros, que o foram felicitar pelo memorável triunfo com que levantou o público das bancadas nos dois toiros que enfrentou e frente aos quais "abriu o livro" e marcou claramente a diferença. Sim, que entre um Moura e os outros haverá sempre uma marcante diferença. Corre-lhe nas veias outro sangue - e outra raça.
Ontem no Campo Pequeno, Miguel Moura subiu importantes degraus e destacou-se pela forma consistente e bem sólida com que lidou os seus dois toiros, onde tudo foi bem feito e onde os pormenores de brega e recortes deixaram a marca mourista e fizeram mesmo recordar seu Pai nos tempos grandes desses inesquecíveis anos 70, quando chegou e disse: agora vai passar a tourear-se assim.
Decidido e com alma, Miguel marcou desde o início a distinção, demonstrando que estava ali para se juntar em definitivo ao pelotão da frente, sem meias tintas, com clareza e com decisão. Os ferros compridos deram o mote ao triunfo das duas faenas, citando de largo, dando prioridade aos toiros, aguentando e reunindo com verdade. Nos curtos, desenrolou duas faenas de grande nível, em que sobressairam as sortes frontais, pisando terrenos "dos que dão dinheiro", rematando as sortes com o temple e a arte que são apanágios do toureio mourista. O público - ontem, mais turistas que verdadeiros aficionados - reagiu com vibrantes e calorosas ovações. O triunfador foi ele - e mais nada.
Vitor Ribeiro teve ontem que se "contentar" com o pior lote. O primeiro toiro da noite foi o mais complicado e Vitor desenhou uma lide de grande seriedade, com ferros curtos de imensa verdade e que só ficou diminuída pela série de sucessivos e violentos toques consentidos. E desnecessários. O seu segundo toiro era manso e refugiou-se nas tábuas. Vitor Ribeiro fez das tripas coração para colocar a ferragem, que resultou emotiva pelo que arriscou e porfiou, valendo-se da sua experiência e das suas excelentes montadas.
Jacobo Botero é um caso de popularidade e um toureiro de rápida comunicação com o público. As "levadas" do cavalo nas cortesias não assentaram bem, não estamos em Espanha. No seu primeiro toiro apontou os melhores detalhes da sua passagem ontem por Lisboa. O primeiro curto foi um assombro. No último toiro da noite, voltou a estar decidido e a querer, rubricando uma lide com altos e baixos e com violentos toques nos remates dos ferros curtos. Desnecessários, também.

Marcelo Loia: outro pegão!

Marcelo Loia, cabo dos Forcados do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, o grande e ainda falado triunfador da recente Corrida TV, voltou ontem a estar enorme com um pegão (ao quinto toiro da corrida) que só não teve a espectacularidade da sua memorável pega de que todos ainda falam precisamente pela intervenção do antigo cabo João Salvação ("Ninan") numa extraordinária e decisiva ajuda, premiada depois com duas voltas "a duo" à arena (foto ao lado) e com o público outra vez todo de pé.
João Salvação acompanhava o grupo na trincheira, à paisana, mas depois das dificuldades manifestadas pela dureza do primeiro toiro, surpreendeu tudo e todos ao surgir fardado e ao saltar por duas vezes a ajudar, fazendo-o de forma monumental nas pegas de César Nunes e Marcelo Loia. Mesmo retirado (despediu-se há um ano), deu ontem um contributo importantíssimo ao triunfo do seu grupo - um gesto de um grande Forcado.
Diogo Amaro não terá sido a melhor escolha do cabo Loia para pegar o primeiro toro da noite, um comboio de Maria Guiomar Moura que fazia mal e por cinco vezes atropelou tudo e todos. Pequeno e franzino, mas grande forcado, Diogo não teve braços para ficar em cinco tentativas duríssimas e das quais saíu sempre derrotado. Pegou o toiro à sexta, a sesgo, com as ajudas carregadas e mais "cento e cinquenta" forcados que saltaram para o acudir...
A segunda pega do Barrete Verde foi concretizada à primeira por César Nunes e, como atrás referi, com uma grande ajuda de "Ninan".
Os Amadores das Caldas da Rainha destacaram-se sobretudo na última pega da noite, muitíssimo bem concretizada pelo cabo Francisco Mascarenhas e com o grupo coeso e decidido nas ajudas. Antes, pegaram António Galeano (à terceira, estando sempre muito bem na cara do toiro, mas faltando sempre as ajudas) e António Cunha (numa rija pega à segunda).
Os toiros de Maria Guiomar Cortes de Moura, excessivamente pesados, tiveram mesmo assim mobilidade e, sobretudo, poder. Exceptuando o quarto, manso, todos deram bom jogo, foram mais ou menos agressivos e deram grande emoção nas pegas, contribuindo em definitivo para uma agradável e ritmada noite de toiros, a nona da Temporada Sensacional do Campo Pequeno.
Frente a toiros "durões", há que destacar o grande mérito dos seis peões de brega que ontem demonstraram a sua classe e o seu valor na arena lisboeta: aplausos para João Mourão e Cláudio Miguel, para Nuno Silva e Duarte Alegrete e para João Ganhão e Nuno Oliveira. Os "de prata" foram de ouro e merecem o destaque.
Condescendente, mas rigoroso, João Cantinho dirigiu a nocturna de ontem com a usual competência e com aprumo. Com aficion, também. Esteve assessorado pelo médico veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva.
A nona corrida da Temporada Sensacional ficou marcada pela clara afirmação de Miguel Moura e pela reafirmação de um grande Forcado, Marcelo Loia de seu nome. Outra vez. Façam-lhe uma estátua - já disse!

Fotos Maria João Mil-Homens