| Miguel Moura foi ontem o grande triunfador da Corrida do Emigrante no Campo Pequeno. Em baixo, Marcelo Loia e João Salvação, os mais destacados da noite no que à forcadagem diz respeito |
Miguel Alvarenga - "Faz-se o que se
pode...". Com a humildade dos grandes Homens e a diferente grandeza de um
Moura, foi com esta simples frase que Miguel Moura agradeceu ontem, no Hotel
Alif, depois da corrida do Campo Pequeno, os inúmeros abraços de parabéns que
ia recebendo dos muitos amigos, alguns toureiros, que o foram felicitar pelo
memorável triunfo com que levantou o público das bancadas nos dois toiros que
enfrentou e frente aos quais "abriu o livro" e marcou claramente a
diferença. Sim, que entre um Moura e os outros haverá sempre uma marcante
diferença. Corre-lhe nas veias outro sangue - e outra raça.
Ontem no Campo Pequeno, Miguel Moura
subiu importantes degraus e destacou-se pela forma consistente e bem sólida com
que lidou os seus dois toiros, onde tudo foi bem feito e onde os pormenores de
brega e recortes deixaram a marca mourista e fizeram mesmo recordar seu Pai nos
tempos grandes desses inesquecíveis anos 70, quando chegou e disse: agora vai
passar a tourear-se assim.
Decidido e com alma, Miguel marcou desde
o início a distinção, demonstrando que estava ali para se juntar em definitivo
ao pelotão da frente, sem meias tintas, com clareza e com decisão. Os ferros
compridos deram o mote ao triunfo das duas faenas, citando de largo, dando
prioridade aos toiros, aguentando e reunindo com verdade. Nos curtos,
desenrolou duas faenas de grande nível, em que sobressairam as sortes frontais,
pisando terrenos "dos que dão dinheiro", rematando as sortes com o
temple e a arte que são apanágios do toureio mourista. O público - ontem, mais
turistas que verdadeiros aficionados - reagiu com vibrantes e calorosas
ovações. O triunfador foi ele - e mais nada.
Vitor Ribeiro teve ontem que se
"contentar" com o pior lote. O primeiro toiro da noite foi o mais
complicado e Vitor desenhou uma lide de grande seriedade, com ferros curtos de
imensa verdade e que só ficou diminuída pela série de sucessivos e violentos
toques consentidos. E desnecessários. O seu segundo toiro era manso e refugiou-se
nas tábuas. Vitor Ribeiro fez das tripas coração para colocar a ferragem, que
resultou emotiva pelo que arriscou e porfiou, valendo-se da sua experiência e
das suas excelentes montadas.
Jacobo Botero é um caso de popularidade
e um toureiro de rápida comunicação com o público. As "levadas" do
cavalo nas cortesias não assentaram bem, não estamos em Espanha. No seu
primeiro toiro apontou os melhores detalhes da sua passagem ontem por Lisboa. O
primeiro curto foi um assombro. No último toiro da noite, voltou a estar
decidido e a querer, rubricando uma lide com altos e baixos e com violentos
toques nos remates dos ferros curtos. Desnecessários, também.
Marcelo Loia: outro pegão!
Marcelo Loia: outro pegão!
Marcelo Loia, cabo dos Forcados do
Aposento do Barrete Verde de Alcochete, o grande e ainda falado triunfador da
recente Corrida TV, voltou ontem a estar enorme com um pegão (ao quinto toiro
da corrida) que só não teve a espectacularidade da sua memorável pega de que
todos ainda falam precisamente pela intervenção do antigo cabo João Salvação
("Ninan") numa extraordinária e decisiva ajuda, premiada depois com
duas voltas "a duo" à arena (foto ao lado) e com o público outra vez todo de pé.
João Salvação acompanhava o grupo na
trincheira, à paisana, mas depois das dificuldades manifestadas pela dureza do
primeiro toiro, surpreendeu tudo e todos ao surgir fardado e ao saltar por duas
vezes a ajudar, fazendo-o de forma monumental nas pegas de César Nunes e
Marcelo Loia. Mesmo retirado (despediu-se há um ano), deu ontem um contributo
importantíssimo ao triunfo do seu grupo - um gesto de um grande Forcado.
Diogo Amaro não terá sido a melhor
escolha do cabo Loia para pegar o primeiro toro da noite, um comboio de Maria
Guiomar Moura que fazia mal e por cinco vezes atropelou tudo e todos. Pequeno e
franzino, mas grande forcado, Diogo não teve braços para ficar em cinco tentativas
duríssimas e das quais saíu sempre derrotado. Pegou o toiro à sexta, a sesgo,
com as ajudas carregadas e mais "cento e cinquenta" forcados que
saltaram para o acudir...
A segunda pega do Barrete Verde foi
concretizada à primeira por César Nunes e, como atrás referi, com uma grande
ajuda de "Ninan".
Os Amadores das Caldas da Rainha
destacaram-se sobretudo na última pega da noite, muitíssimo bem concretizada
pelo cabo Francisco Mascarenhas e com o grupo coeso e decidido nas ajudas.
Antes, pegaram António Galeano (à terceira, estando sempre muito bem na cara do
toiro, mas faltando sempre as ajudas) e António Cunha (numa rija pega à
segunda).
Os toiros de Maria Guiomar Cortes de
Moura, excessivamente pesados, tiveram mesmo assim mobilidade e, sobretudo, poder.
Exceptuando o quarto, manso, todos deram bom jogo, foram mais ou menos
agressivos e deram grande emoção nas pegas, contribuindo em definitivo para uma
agradável e ritmada noite de toiros, a nona da Temporada Sensacional do Campo
Pequeno.
Frente a toiros "durões", há
que destacar o grande mérito dos seis peões de brega que ontem demonstraram a
sua classe e o seu valor na arena lisboeta: aplausos para João Mourão e Cláudio
Miguel, para Nuno Silva e Duarte Alegrete e para João Ganhão e Nuno Oliveira.
Os "de prata" foram de ouro e merecem o destaque.
Condescendente, mas rigoroso, João
Cantinho dirigiu a nocturna de ontem com a usual competência e com aprumo. Com
aficion, também. Esteve assessorado pelo médico veterinário Dr. Jorge Moreira
da Silva.
A nona corrida da Temporada Sensacional
ficou marcada pela clara afirmação de Miguel Moura e pela reafirmação de um
grande Forcado, Marcelo Loia de seu nome. Outra vez. Façam-lhe uma estátua - já disse!
Fotos Maria João Mil-Homens
