segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Montemor, ontem: assim, dá gosto ir aos toiros!

Montemor-o-Novo, ontem: praça cheia!
Foto Ana de Alvarenga
Os seis toiros foram ontem primorosamente recolhidos a cavalo e os dois
eficientes Campinos premiados com merecida volta à arena
Momentos de glória das actuações de Rui Fernandes ontem em Montemor, onde
reafirmou o momento cumbre que atravessa. Toureou pouco em Portugal este
ano, mas nem por isso deixou de marcar a temporada e de consolidar a grandeza
do seu toureiro e o magnífico momento da sua quadra. Está um Senhor Toureiro
capaz de criar dores de cabeça a qualquer companheiro de cartel...
Um ferro verdeiramente ao estribo, como os livros ensinam, de Manuel Telles
Bastos
no seu primeiro toiro e. em baixo, sequências dos momentos de susto
vividos na sua segunda actuação
Na foto de cima, o último e ousado ferro de Manuel Telles Bastos, a terminar
uma lide acidentada, ao quinto toiro da tarde, marcada por duas aparatosas
quedas (fotos de cima), que felizmente não tiveram consequências de maior
para além dos sustos
Momentos da apoteótica actuação de João Moura Júnior no último toiro da
corrida, a marcar a diferença e a clara liderança da temporada, que o jovem toureiro
de Monforte teima em não dar de mão beijada a ninguém
Este arrepiante ferro de Moura Jr. no seu primeiro toiro foi o grande ferro da
primeira parte da corrida de ontem em Montemor-o-Novo


Miguel Alvarenga - Cumpriu-se a tradição, mesmo sem esgotar (o cartel justificava-o), Montemor foi ontem praça cheia e os toiros sérios e de grande transmissão da ganadaria Silva Herculano contribuiram para a emotiva tarde de que foram protagonistas os cavaleiros Rui Fernandes, Manuel Ribeiro Telles Bastos e João Moura Júnior, bem como os Forcados Amadores de Montemor. Houve suspiros e corações apertados nas bancadas e muita emoção na arena, não apenas pelas actuações de todos os artistas, mas também pelos acidentes, felizmente sem consequências graves, do cavaleiro Manuel Telles Bastos (que foi duas vezes ao chão enquanto lidava o quinto toiro da ordem) e do forcado Francisco Borges, que perdeu os sentidos após violento derrote quando tentava pegar o último toiro (ver reportagem publicada anteriormente).
O ganadeiro Henrique Herculano, filho do saudoso Dr. Jaime Herculano, fundador da ganadaria, deu aplaudida e merecida volta à arena no terceiro da ordem.
Não foi, nada que se lhe pareça, uma corrida de toiros "pastelões", "nhoc-nhoc's", como um dia Salgueiro baptizou os suaves Murubes (nem todos, atenção) que nos tentaram impor em anos anteriores e que parecem agora definitivamente "fora de combate" (ou quase), numa temporada em que voltaram às nossas arenas os toiros de verdade e se repõs a emoção e a seriedade que tão afastara andaram deste reino das touradas...
Há que felicitar, antes de mais, a primorosa organização da empreendedora dupla empresarial Simão Comenda/Paulo Vacas de Carvalho, por mais uma jornada de grande impacto e por esta corrida que todos os anos marca a temporada - e ontem a marcou uma vez mais.
Houve critério apurado na selecção do cartel, trazendo Rui Fernandes, um toiro de desmedido valor e que está num momento enorme, embora tenha toureado menos que o usual nesta época (o que terá acrescido o interesse em o ver); Manuel Telles Bastos, depois do grande triunfo em Maio no Campo Pequeno e que era ontem muito justamente compensado por ter sido o grande triunfador desta mesma corrida há um ano; e João Moura Júnior, o líder da temporada, incluído neste cartel de ontem por ter sido o triunfador da corrida de Maio nesta mesma praça. E os três corresponderam, dando o seu melhor frente a toiros daqueles que pôem todos en su sítio - reafirmando os três que são Toureiros de muito valor e de uma arte distinta, cada qual com seu estilo.
Rui Fernandes está um Senhor Toureiro, consolidou uma posição cimeira e de grande destaque no panorama taurino mundial e ontem reafirmou o momento alto que vive e a excelente qualidade da sua magnífica quadra de cavalos, com soluções e argumentos para fazer frente a todos os toiros. As coisas não se apresentaram fáceis, frente a dois toiros duros e encastados, que pediam contas, mas Rui fez parecer tudo simples e a suavidade e serenidade com que toureou demonstraram a maturidade e a solidez de uma carreira subida a pulso. É um dos grandes do momento e só é pena que toureie pouco - porque faz falta e engrandece qualquer cartel. Não se entende por que razões só esteve este ano uma vez em Lisboa e porque não está na Feira da Moita...
Manuel Telles Bastos faz gala no seu toureio clássico, segue a linha de maestria de seu tio António e dá sempre gosto vê-lo tourear com a verdade e a classe que põe em todos os pormenores das suas actuações. Ontem teve uma intervenção brilhante no seu primeiro toiro, bregando com a superioridade de sempre e cravando ferros como os livros ensinam, ao estribo, com o rigor e a verdade de outros tempos. E no segundo, um toiro que não era para brincadeiras, teve algum azar, mas jamais virou a cara e remontou-se sempre, utilizando o mesmo cavalo, depois de sofrer duas aparatosas quedas: uma por o cavalo ter escorregado junto às tábuas, sendo aparatosamente alcançado pelo toiro e outra por violento toque quando cravava o último ferro curto. São coisas que acontecem aos melhores e que fazem parte das emoções de que vive a Festa. Foram, por isso, injustificados e incompreendidos os assobios que se ouviram depois da segunda queda. Manuel recompôs-se e pôs um último ferro, ousado e em terrenos de risco, afirmando a sua classe e a sua garra - que são grandes e fazem dele um jovem à antiga e diferente.
João Moura Júnior voltou ontem a afirmar a liderança que assumiu de forma clara e inequívoca nesta temporada de 2015 e, uma vez mais, marcou a diferença, sobretudo no último toiro, com ferros de parar corações, ferros daqueles que "dão dinheiro" e colocam um toureiro no mais alto dos patamares de qualquer escalafón. No seu primeiro toiro, terceiro da ordem, cravara já aquele que fora, até ali, o grande ferro da tarde. No seu segundo, abriu o compêndio e explicou por que razão é este ano o primeiro. Todos os pormenores de brega, a forma como lidou os toiros e a emoção que colocou em todos os ferros, em terrenos de alto compromisso, a entrar verdadeiramente pelo toiro dentro e a sair como se nada de arriscado tivesse feito, foram apenas pormenores de uma lide que marcou a grandeza do toureio do jovem Moura e reafirmou todos os atributos e mais alguns com que tem sido glorificado e cantado nesta grande temporada de 2015.
Das seis pegas e do também notável triunfo dos Forcados Amadores de Montemor já aqui falámos anteriormente em pormenor. Os seis toiros foram primorosamente recolhidos a cavalo e os valentes Campinos premiados com merecida volta à arena no quarto da ordem.
Resta acrescentar que a corrida foi muito bem dirigida por Agostinho Borges e que são tardes como a de ontem em Montemor que dignificam e engrandecem, com seriedade, toiros de verdade e toureiros de luta, esta Festa que tem cada vez mais adeptos e mais entusiastas, voltando aos poucos ao glamour e à grandeza que teve em tempos idos. Temos hoje toureiros, forcados e outra vez toiros para dar contituidade a um espectáculo secular e que andavam a desvirtuar com toirinhos de brincar. Bem hajam, Simão Comenda e Paulo Vacas, pelo exemplo que deram ontem.

Fotos Emílio de Jesus/fotojornalistaemilio@gmail.com