quarta-feira, 16 de março de 2022

Fernando Camacho faria hoje 93 anos

Fernando Camacho (na foto de cima, com a jornalista Vera Lagoa), ainda e sempre a maior referência entre os apoderados taurinos nacionais, faria neste dia 93 anos. Morreu há 16, em 2006, precisamente no dia em que era reinaugurada, depois das obras, a praça de toiros do Campo Pequeno.

"O meu pai faria hoje 93 anos, ele era concerteza o homem mais original, divertido e mais bem vestido que eu até agora conheci. Quando eu nasci, ele entrou pela clínica às 2 da madrugada, exigindo ver a Miss Universo 1980, anos depois ensinou-me que concursos de beleza exploravam mulheres. Eu nasci num feriado e o meu pai sempre me disse que tinha telefonado ao presidente da República para decretar o feriado em minha honra, porque eu era a mais bonita bébé de Lisboa. Agora, com quase 62 anos, eu ainda acredito vivamente nessa história" - escreveu hoje na sua página da rede social Facebook a filha do famoso apoderado, Janeca Ribeiro, fruto do seu casamento com Maria Odete Rodrigues, a irmã mais nova da diva Amália Rodrigues (foto de baixo).



Homem marcante, com uma personalidade fortemente vincada e que foi uma das maiores e também mais polémicas referências da Tauromaquia portuguesa durante largos anos, Fernando Camacho ainda hoje é recordado como o último dos grandes apoderados que Portugal teve.


Nascido a 16 de Março de 1929 em Moura, no Alentejo, Fernando Norberto de Matos Camacho Ribeiro tinha 77 anos no dia em que morreu. Entrara no ‘mundillo’ taurino quando tinha 19 anos pela mão do célebre apoderado espanhol Andrés Gago Suárez, quando começou a representar o matador de toiros Manolo Vásquez em Portugal. Na década de 60 trocou a profissão de empresário têxtil pela de apoderado – agente artístico de toureiros –, e esteve anos radicado em Sevilha.

 

No final da década de 80, princípios da de 90 foi empresário da praça de toiros do Campo Pequeno numa sociedade que integrava também Jorge Pereira dos Santos, Mário Freire, Quintano Paulo e seu filho José Manuel Ferreira Paulo (Cachapim) e António Paes de Sousa. Foi na vigência desta empresa que se comemorou o centenário da praça de toiros lisboeta.


Foi casado em primeiras núpcias com Odete Rodrigues, irmã de Amália Rodrigues, de quem teve uma filha, a João. Posteriormente, casou e viveu o resto da sua vida com Virgína (Gina) Puppe dos Santos, mãe de dois filhos, José Maria e Conceição, que Camacho criou desde pequenos e amava como se fossem também seu filhos.


Ao longo da sua carreira dirigiu a carreira de famosos toureiros como Francisco Mendes, Armando Soares, Amadeu dos Anjos, João Moura, Paulo Caetano, Joaquim Bastinhas, José Manuel Correia Lopes, João Salgueiro, Carlos ArrudaRui Bento Vásquez, Pedrito de Portugal, entre outros


Representou em Portugal grandes figuras do toureio mundial como Carlos Arruza (mexicano) e César Girón (venezuelano). No ano em que morreu apoderava o então promissor novilheiro João Diogo Fera, hoje já matador de toiros.


Foi um homem adorado por uns e odiado por outros, mercê do seu carácter vincado e profundamente polémico. Esteve envolvido em fases e episódios marcantes da história da tauromaquia portuguesa e nos anos 80 viveu no México, onde foi apoderado do rejoneador Ramón Serrano.


Natural de Moura, como acima referimos, chegou a integrar o grupo de forcados local nos seus inícios, mas cedo descobriu a veia para o marketing e o negócio taurino, consagrando-se como um dos maiores do mundo e, de longe, o maior em Portugal.


Numa entrevista à revista “Novo Burladero” em Agosto de 1982, Fernando Camacho falava dos seus inícios no mundo dos toiros, das primeiras corridas a que assistiu com seu pai no Campo Pequeno, do dia em que foi espreitar o famoso Manolete à saída do Hotel Avenida Palace em Lisboa e o viu acompanhado por sua noiva Lupe Sino, das influências que recebeu daquele que foi o seu maior mestre, o histórico apoderado espanhol Andrés Gago (que recordava sempre com admiração e carinho), das épocas em que viveu em Sevilha e acompanhou o matador Manolo Vásquez, dos apoderamentos de Francisco Mendes e Armando Soares, de Paulo Caetano e João Moura e sobretudo das suas imensas vivências - que davam um livro que nunca chegou a ser escrito.


"Se alguma coisa desejo para a recta final da minha vida, é acabar os meus dias em Sevilha. O modo como se discute o toiro, esse silêncio da Real Maestranza, a maneira como se encara o toureio feito arte, esse bairrismo, essa defesa quase tendenciosa do toureio andaluz, fazem de Sevilha uma terra única!", dizia nesse ano de 1982.


Recordamo-lo com saudade. E a nostalgia de nunca mais ter havido outro taurino como ele.


Fotos D.R.


1978 no Campo Pequeno, com "Niño de la Capea"
1986 na Monumental do México, com Miguel Alvarenga

Camacho com dois outros grandes nomes do mundo taurino
nacional, Raul Nascimento e Alfredo Ovelha