Miguel Alvarenga - Depois de um "casão" no sábado na corrida de rejoneio, a Monumental de Badajoz registou ontem uma enchente de mais de três quartos da lotação na segunda e última corrida desta Feira de San Juan - uma magnífica moldura humana como há muitos anos não se via nesta (finalmente) recuperada praça.
Morante é um caso. Punto y aparte - como se intitula uma das suas mais recentes biografias, esta da autoria de Rubén Amón, editada pela Espasa. O poder de mobilização de aficionados detido por Morante de la Puebla terá sido a razão da fortíssima presença de público ontem em Badajoz, mas não a única: o cartel estava superiormente rematado com o reforço das presenças do matador local Alejandro Talavante e de David de Miranda, o furacão de Huelva que está no seu grande momento - dois dos toureiros mais em destaque nesta temporada.
À enchente registada na Monumental de Badajoz há que acrescentar o facto da presença de muitos, mesmo muitos, aficionados portugueses, entre os quais uma numerosa representação do Real Clube Tauromáquico e outra da Tertúlia Valores e Tradições.
Há muitos anos que não se registava em Badajoz uma tão numerosa presença de aficionados lusitanos - o que terá sido uma consequência dos belíssimos cartéis montados pela empresa Fusión Internacional por la Tauromaquia, concretamente por António Barrera e José Cutiño, já com notória intervenção de Rui Bento, bem como da aposta de promoção da feira na mais importante imprensa taurina de Portugal.
A corrida resultou e o público saíu satisfeito da praça, comentando as muitas incidências que traduziram o sucesso do espectáculo e os triunfos dos três matadores.
De desigual apresentação, lidaram-se seis toiros da ganadaria de Daniel Ruiz, que tiveram jogo e comportamentos distintos, destacando-se, como o melhor dos seis, o lidado em terceiro lugar por David de Miranda, ao qual o matador de Huelva cortou as duas orelhas, obtendo o "passaporte" para a triunfal saída em ombros pela Porta Grande. A sós.
Morante toureou divinalmente o primeiro toiro da noite, impondo e demonstrando toda a força do seu toureio e o momento altíssimo que atravessa. Dizem que será o melhor toureiro de todos os tempos - não gosto de fazer grandes comparações, a História do Toureio está cheia de "monstros sagrados", mas Morante de la Puebla é capaz de ser, como dizem, o "mais raro" e o "mais estranho", também o mais perfeito, e acima de tudo o mais genial de todos. Ou, pelo menos, de todos os dos últimos anos.
Existe hoje uma verdadeira onda morantista que motiva e provoca verdadeiras romarias de aficionados a todas as praças onde ele toureia. E em todas as corridas Morante surpreende com qualquer detalhe que marca, de facto, a diferença.
Nesta primeira actuação, vimos a sua arte com o capote, o gosto e o poderio com que toureou de muleta, desfrutando ele próprio e fazendo desfrutar todos os aficionados. Foi pena o desacerto com a espada, que o que Morante fez ali foi uma verdadeira obra de arte e merecia as duas orelhas.
No quarto toiro, com menos chama e menos potencialidades para proporcionar o triunfo, Morante empenhou-se, reafirmou todo o seu profissionalismo e a entrega e a paixão com que sempre está em praça, foi uma faena distinta da primeira, mas matou melhor e o presidente concedeu-lhe uma orelha. O público pediu com força a segunda, que era merecida, mas sua excelência não lha concedeu. Volta muito aplaudida e grande euforia em torno do génio quando, finda a corrida, voltou a atravessar a arena para se ir embora.
Alejandro Talavante é também um dos matadores em destaque nesta temporada e isso mesmo se encarregou de nos mostrar ontem em Badajoz.
Artista e elegante com o capote, esteve superior nas duas faenas de muleta, face à pouca qualidade dos dois toiros que lhe tocaram. Escutou ovação no segundo da noite, depois de ter soado um aviso; e no segundo cortou uma merecida orelha.
David de Miranda é um dos grandes "leões" das duas últimas temporadas - e não terá sido por acaso que o Maestro Enrique Ponce se juntou este ano a Juan Palomares na sua equipa de apoderamento. Deixou de ser "o toureio de Huelva" para ser hoje um dos toureiros importantes de Espanha.
O seu primeiro toiro, terceiro da corrida, foi dos seis o melhor e David de Miranda cedo se apercebeu de que tinha ali matéria para poder triunfar. Quando toureava de capote, a dado momento, o toiro parou-se com os cornos a roçar-lhe a perna - e parado ficou o toureiro, quando outros teriam feito certamente "uma espantada" defensiva. Nesse momento, David Miranda conquistou o púbico e ouviu a primeira grande ovação da noite.
Com a muleta, desenhou uma faena poderosa e mandona pelos dois lados, conquistando passe a passe as ovações de uma praça cheia que depressa se lhe rendeu. Matou de uma estocada inteira e ninguém teve dúvidas de que seria, como foi, premiado com as duas orelhas.
No último toiro, de nota muito inferior e que não se deixou ver no capote, David Miranda esteve esforçado e com muita entrega, mas faltaram ovos para cozinhar a omeleta. Matou de certeira estocada, mas degolou o toiro, provocando as sempre evitáveis imagens de golfadas de sangue pela boca, o que esfriou o público e levou o presidente a não lhe conceder nenhum troféu.
Agradável surpresa (porque nem sempre isso acontece) foi a intervenção, sobretudo com as bandarilhas, dos subalternos das quadrilhas dos três matadores, destacando-se sobretudo Javier Ambel e Manuel Izquierdo, da quadrilha de Talavante, que agradeceram no segundo toiro uma calorosa ovação de montera em mão.
Os picadores não abusaram, mas nota-se cada vez mais a intolerância do público espanhol para com as suas intervenções. Eu sou suspeito, porque nunca fui grande simpatizante da intervenção dos picadores nas corridas à espanhola, mas, na realidade, o público aficionado começa a questionar cada vez mais se não terá chegado a hora de suprimir esta parte (se calhar, desnecessária, porque abusiva na maior parte das vezes) da corrida.
Muita juventude na arena, no final, a acompanhar com grande entusiasmo a despedida dos matadores Morante e Talavante e ainda mais, a seguir, em torno da saída aos ombros de David de Miranda.
Como nota maior da corrida de ontem à noite em Badajoz, o facto de já ser notória a recuperação, por parte da FIT, de uma praça que parecia adormecida e começa a estar de novo em alta.
Fotos M. Alvarenga
| Obra de arte de Morante em Badajoz |
| Raça e poderio: Talavante em alta |
| O toiro parou e parado ficou David de Miranda, sem pestanejar. E este foi o momento em que ontem conquistou Badajoz! |
| Duas orelhas no terceiro toiro abriram a Porta Grande a Miranda |
