sábado, 21 de novembro de 2020

Joaquim Grave (fala quem sabe!): Corridas de toiros mais light...



Caros amigos,


Sempre defendi por palavras e escritos que a incompreensão do fenómeno da tauromaquia resulta do desconhecimento (ignorância) do que é o toiro bravo. Toda a ética da corrida (tourada) repousa sobre a ideia de bravura do toiro e a sua legitimidade intelectual deve ser analisada à luz de uma simples questão: o que é o toiro bravo?


Isto vem a propósito de umas opiniões sobre as corridas de toiros que ultimamente vieram a lume sobre uma possibilidade de a tornar mais ligth. Presumo ser uma pessoa de diálogo quando encontro substância para dialogar, o que não me impede de respeitar todas as opiniões, ainda que contrárias às minhas. Neste caso, nem vou entrar em discussão sobre um tema que não me merece a mínima discussão por entender que resulta de, como afirmei de início, de um completo desconhecimento do que é o toiro bravo.

 

A corrida de toiros se se tornar num mero espectáculo vulgar não tem razão de existir. Assim de simples. O que a torna diferente é a sua dimensão de realidade. Tudo se representa como no teatro, mas tudo acontece como na vida real. A grande diferença da arte da tauromaquia é que o artista, o toureiro faz arte arriscando a vida. Ali tudo é verdade. A implementar o que alguns, felizmente poucos, preconizam, a reacção do toiro seria completamente diferente e o combate perderia perigo em desfavor do toiro; deixava de ser um combate leal para ser desleal! E esta realidade vem simplesmente da natureza do animal que se enfrenta. 


A selecção faz-se pela função, ao não haver função deixa de haver selecção; e ao não haver selecção deixa, naturalmente, de haver bravura. Se a função está desvirtuada, a selecção perde eficiência e depressa chegaríamos a um animal completamente diferente do toiro bravo que existe hoje. Arrisco mesmo afirmar que a bravura desapareceria. Alguns dos que opinam, conhecerão provavelmente o espectáculo em si melhor do que eu, mas o que está em causa aqui é o toiro e aí campera um desconhecimento profundo sobre as suas particularidades fisiológicas e anatómicas, que o tornam num animal único e singular.


Sempre defendi que só se devem fazer corridas de toiros com o toiro bravo que hoje existe e conhecemos. Se avançarmos para outro animal, estaríamos isso sim, a dar toda a razão aos animalistas, porque o “nosso” toiro já não seria único, mas sim um bovino como outro qualquer com a diferença que correria sem bravura atrás do cavalo (tenho dúvidas sobre quanto tempo, quantas gerações...).


Considero despropositado, inoportuno que sejam agentes da própria Festa a levantar estas questões porque, de facto, não duvidando das suas boas intenções, estão a “dar o ouro ao bandido”! É exactamente ceder e dar-lhes de mão beijada o que eles pretendem. Mas será que ainda não perceberam que o que os animalistas, governo incluído, o que querem é acabar com a s corridas??!! Hoje é uma coisa, amanhã será outra...


Tenho entregado a minha vida a uma causa em que acredito, não pelo facto de ser agente da tauromaquia. Esse facto nunca ocultou a minha curiosidade intelectual em perceber a relação ética homem/animal na tauromaquia. Esta sociedade contemporânea quer esconder o sangue, convencida que a ferida não existe. Enganam-se rotundamente e entristece-me profundamente. A tauromaquia tem valores mais que suficientes para se afirmar pela positiva, não tem que pedir perdão ou desculpa e mascarar-se numa forma mais ligth.

 

As touradas não são apenas um espectáculo magnífico. Não são apenas desculpáveis, são defensáveis porque são moralmente boas.


Não considero que este assunto mereça sequer discussão, já escrevi e expliquei em várias ocasiões que o toiro não sofre. A tourada pode ter até aspectos cruentos, mas nunca é cruel. Para mim este tema está encerrado e não mais voltarei a ele. Se a voz da razão não vingar, a ganadaria Murteira Grave deixará pura e simplesmente de lidar toiros em Portugal.


P.S.:Acabei de ler um magnífico texto do Dr. Rodrigo Alves Taxa no blogue Farpas. Leiam, está lá tudo bem explicado.


Joaquim Grave         

Foto D.R./@Murteira Grave